Sobre fé e transcendência

além da religião

A MULHER SÁBIA EDIFICA A REVOLUÇÃO

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ELIANE PINHEIRO

   Fui destinada a ser evangélica por escolha de meu pai e de minha mãe. Fossem budistas, eu certamente o seria, pelo menos até a insurreição da fase da revolta. Minha família me fez crente, Deus me fez rebelde. Perdoem-me os amigos ateus e as amigas atéias, mas devo esse milagre à Deus.

Cresci vendo mulheres traídas e maltratadas serem aconselhadas a perdoar seus maridos em nome de Deus. Caso a traição fosse inversa, o pobre irmão, envergonhado, tinha toda uma igreja em oração até que o Senhor lhe preparasse outra esposa fiel e digna.

Apóstolo Paulo escrevera que às mulheres era proibido falar, portanto deveriam ficar caladas na igreja. Dissera também que afeminados eram abomináveis. Tava tudo na bíblia, na palavra de Deus.

Usávamos saia, não cortávamos o cabelo, não andávamos de bicicleta, não éramos livres como os meninos. Até, e principalmente, nossa virgindade era propriedade da religião.

Nunca entrou em minha cabecinha que Deus achasse bonito minha mãe orando e chorando, anos após anos, pelos cantos da casa, para que Jesus salvasse meu pai, o libertasse, para que ele parasse de maltratá-la, para que o Espírito Santo o ensinasse a não ser mais um homem cruel. Jamais pude compreender e aceitar que era vontade de Deus que eu não pudesse jogar bola, ir à praia, tomar banho de piscina (Essa é a hora que vocês podem ter dó de mim. Eu tenho.).

No início da adolescência que ouvi os primeiros rumores de que dava pra reinterpretar o que o apóstolo Paulo havia escrito (sobre as mulheres, óbvio. A parte dos homossexuais continuaria em voga). Precisavam de uma explicação aceitável, e não foi difícil: a teologia diferenciava a interpretação exegética da hermenêutica, e agora as fêmeas não só poderiam falar, como também ser presbíteras, pastoras e até bispas.

Minha esperança durou quase nada: no primeiro encontro de mulheres que fui, a pastora ensinou à multidão feminina qual a melhor forma de limpar uma geladeira. Depois ouvimos uma pregação sobre como aprender a abrir mão da vontade própria para colocá-la na mão de um homem. Chamavam a essa bizarrice de submissão. Tava na bíblia. E fim de papo. A tarde foi brindada com chá, biscoitos, e um desfile de moda. Porque as irmãs não tinham apenas que ser meigas, tinham também que aprender as ser fúteis.

Deus não é mulher; nem homem. Jesus o chamava de Aba, paizinho.  Há passagens bíblicas que se referem a Deus como uma mãe que não abandona seu filho, como uma galinha que cuida dos pintos debaixo de suas asas. Nas palavras de Leonardo Boff, a face materna de Deus, Pai e Mãe de nossas almas.

Deixaram a mulher falar, desde que ela não opinasse. Deixaram a mulher subir ao púlpito, mas para repetir o discurso opressor. Deixaram a mulher usar o microfone, contanto que usasse salto, maquiagem, mas que fosse um macho típico, que reproduzisse machismo.

Por trás do discurso de que a “mulher sábia edifica a sua casa”, estava a sutileza da negação da personalidade, do desejo, da firmação enquanto ser. A mulher “sábia” deveria estar a serviço da sexualidade de seu marido, porque não queria ser traída; a mulher “sábia” não gritava como uma louca, e compreendia que seu esposo só gritava quando estava nervoso. Buscaria acalmá-lo, cheia de sabedoria.

Enquanto buscava piamente ser sábia, a mulherada não sabia, por exemplo, que Olga Benário parecia mais com o Cristo, por não “se alegrar com a injustiça” e por “padecer perseguições por causa da justiça”.

Naquela época e hoje, as pregações de mulheres para mulheres nunca as convidarão a pensar porque há mulheres que ganham menos que os homens exercendo uma mesma função. Que nem toda mulher precisa procriar para sentir-se plena. Tampouco sobre o casamento ser o caminho para a felicidade.

As pregações evangélicas de mulheres para mulheres tornam ambas mais infelizes – as primeiras porque pregam o que não vivem. As segundas, porque além de serem oprimidas, ainda alimentarão sentimentos de culpa quando suas almas se cansarem da injustiça sofrida em nome de Deus. Tolas, destroem a vida com as próprias mãos.

Para a religião, a mulher “sábia” até pode trabalhar fora e pagar contas, desde que não deixe de cuidar dos filhos, cozinhar e limpar a casa. A mulher “sábia” é um robô à disposição dos anseios de sucesso de seu marido e dono, que faz para a família os planos que bem lhe aprouver.

A mulher “sábia” dos conservadores é tão desalmada, que deixa de ser mulher. Deixa de ser. Vira coisa.

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35 opiniões sobre “A MULHER SÁBIA EDIFICA A REVOLUÇÃO

  1. Dany em disse:

    Fantástico!!!

  2. aplausos. ótimo texto. vou dar um jeito de fazer com que mais mulheres o leiam.

  3. Sirlene Barbosa em disse:

    Como sempre, texto inspirador. Tô na vibe de Carolina Maria de Jesus: sábia que edificou uma pequena, mas forte revolução.

  4. Você é linda, Sirlene! Obrigada!!!!

  5. Tiago Melo em disse:

    E as mulheres, tão presentes na minha vida, sempre me limpam.
    Salve, Eliane Pinheiro!

  6. Fernanda Borges em disse:

    Esse texto me limpou. Tirou-me o peso de ‘ter de ser mãe’. Não me tirou a vontade, pq essa tenho muita, mas o principal: tirou-me a culpa….

  7. Pingback: A mulher sábia edifica a revolução | Pavablog

  8. Incrivel, vi minha irma mais velha (que frequenta a igreja, o que não faço atualmente) e desconfiei que foi ela que escreveu, pois conta a maneira que crescemos. Sinceramente é muito triste relembrar como a culpa é usada. Bem, parabéns pela ousadia de n se render a culpa e pelo texto que conta a história de muitas como eu.

  9. Giseli em disse:

    Nossa, que texto lindo! Tantas passagens fizeram parte de minha formação e tantas vivi quando casada. E viva o divórcio!!!!! Hoje, divorciada, tenho mais direitos que casada. Quanto a DEUS, não me preocupo mais sobre o que venha a ser ou é. Não tenho mais medo.

  10. giselle em disse:

    vc fala como se estivesse falando um pouco da minha vida. Creio em Deus, gosto da igreja que frequento, mas há exatamente essas falhas de conceito que vc citou, essa visão deturpada do que é ser uma mulher sábia. Infelizmente a maioria das mentes ainda são/estão muito fechadas, é uma situação complicada, controversa. E muitas mulheres sofrem com isso.

  11. Maria em disse:

    Dói na alma a falta de respeito. A falta de amor. Nos humilham sem dó e piedade como fóssemos coisas ou objetos descartáveis. É uma pena.Isso é um fato para muitas mulheres que sofrem nas mãos desses homens machistas.

  12. Isis em disse:

    Faço coro com este texto Eliane. Contra esse Devir Mulher que a religiosidade nos impõe, mas a favor da emancipação feminina que Cristo proporciona.

  13. Wer_BR em disse:

    Por favor, leia “Em busca do sentido da vida”, de Viktor Frankl. Abraço!

  14. Já faz algum tempo li o livro O Que os Evangélicos Não Falam, do Ricardo Gondim. Entre os vários capítulos cito um trecho de apenas um: EU MULHER
    “… Será que precisamos insistir na tese de que a mulher foi a única culpada pela queda? Repetiremos sempre a desculpa esfarrapada de Adão, de que a mulher o induziu ao erro? Creio que já caminhamos o suficiente na teologia para entendermos que a humanidade, tanto homens quanto mulheres, é suscetível ao pecado e que nossa fraqueza precisa ser solidariamente assumida. Parece-me que as perspectivas teológicas masculinas que dominam o pensar por tantos milênios colocaram sobre a figura feminina um peso maior. Creio que o pecado, considerado como ruptura de toda relação como Deus e com os seres humanos, tem a dimensão da fraqueza, bem como do orgulho, pois nega nossa responsabilidade humana e agride o propósito de nossa criação. Insisto em afirmar que o pecado não possui gênero – não é masculino nem feminino; é um desvio de nossa humanidade.”

  15. Angela em disse:

    Eliane seu texto é maravilhoso, que ele corra a internet esclarecendo as pessoas! Muitos não frequentam mais a igreja e largam a fé por causa disso, porém oq admirei foi q vc continua na fé, pois vc soube separar o erro das pessoas que pensam que estão fazendo um ‘serviço’ p Deus prosseguindo com essa mentalidade do próprio Deus que é amor e justiça. Se as pessoas se tocassem que continuar com isso mais aparta do q outra coisa quem sabe isso pararia. Obrigada e tudo de bom.

  16. Angela, agradeço suas palavras de encorajamento! Muito obrigada!!!

  17. Vilma Alves em disse:

    Parabéns!!! Sem palavras para comentar, mas você é muitíssimo corajosa, acabo de me tornar sua admiradora (você só podia ser amiga do Tiago Melo em?)

  18. Querida, Deus te abençoe muito!Partilho imensamente da sua visão! Acabo de postar seu texto em meu blog, lhe dando os devidos créditos!

  19. pq o dogma da mulher submissa foi repensado e o da homossexulidade n é nem visto como também questionável? não são poucos os teólogos q explicam o pq n é pecado. sugiro um estudo à fundo sobre esse tema. lendo as passagens no grego, relembrando q a biblia foi reescrita diversas vezes por papas e em cada época é inquestionável as alterações feitas. lembrando q a igreja catolica já celebrou casamento gay, muitos e muitos anos atrás, depois esse dogma voltou a ser pecaminoso e indiscutível.
    enfim, parabéns por este texto, ele sem dúvida é libertador para muitas mulheres cristãs. 😉

  20. Jesus Feminista
    Talvez o título do texto assuste e cause alguma estranheza e desconforto. Mesmo ciente disso, quero dizer que não e este meu propósito. Ou talvez seja: causar estranheza e desconforto naqueles que tem uma visão extremamente ortodoxa do Jesus. Sobre o Ieshua/Jesus feminista, Leonard Swidler contribui conosco dizendo que “Se examinarmos os evangelhos não com olhos de macho chauvinista, nem de eterno feminismo, veremos que o modelo apresentado por Ieshua é o modelo do feminista: Ieshua era feminista.” Swidler prossegue dando-nos uma breve definição de feminista: “Feminista é a pessoa que é a favor da igualdade de homens e mulheres, e a promove, a pessoa que defende e pratica o tratamento às mulheres em primeiro lugar como pessoas (pois os homens são tratados assim) e contraria de bom grado os costumes sociais ao fazê-lo (…) Em nenhum trecho Ieshua trata as mulheres como seres inferiores.” Exemplo disso é o Evangelho segundo Lucas.
    Em outro momento do livro: Ieshua- Jesus histórico, Leonard Swidler nos lembra que “Todo homem e toda mulher devem ser receptivos, bem como delicados e firmes, emotivos e racionais, para um ser humano completo. Contudo, as estruturas de quase todas as sociedades tendem a dividir a pessoa humana em duas metades, a masculina e a feminina e a insistir que isso é prescrito na lei natural.” Penso cá comigo: isso é transformar biologia em ontologia. “Mas na verdade, as mulheres não são mais constituídas primeiramente pelo seu sexo do que os homens: são primeiramente pessoas, exatamente como os homens.”
    Essa ideia básica de cristianismo primitivo é gritante na obra de Swidler: antes de sermos homens ou mulheres, somos pessoas e, diga-se de passagem, pessoas humanas. Jesus é o modelo dos cristãos do encontro com Deus, com a natureza, com o eu, com o próximo, especialmente com os oprimidos, isto é, os fisicamente doentes, os pobres, os ignorantes – e as mulheres. Durante séculos, os cristãos tentaram imitar Ieshua em todos esses encontros, com exceção do último. Uma breve análise histórica sobre o cristianismo comprova a tese.
    Por falar em análise históricas algumas perguntas se fazem necessárias: quando falamos de figura feminina, a qual mulher estamos nos referindo? A mulher do contexto do Antigo ou do Novo Testamento? À mulher da Antiguidade, dos tempos modernos ou da sociedade dita pós-moderna? A mulher de qual contexto cultural? (Estas perguntas foram suscitadas pela psicóloga Taís Machado). Qualquer tentativa de responder uma ou todas estas perguntas seria exaustiva e, ainda assim insuficientes dadas as teorias e conjunções históricas. Porém, uma resposta ainda que insuficiente é melhor que o silêncio absoluto.
    Sabemos através do sociólogo e filósofo Frédéric Lenoir que as primeiras representações do divino eram vistas como deusas e não deuses. Segundo ele: “Por volta de 7 mil anos antes de nossa era, aparecem na Antiguidade altares domésticos e baixo relevos e caráter explicitamente religioso, mostrando mulheres dando à luz a touros (…) historiadores denominarão de culto da Grande Deusa ou da Deusa Mãe (…) Mas isso não vai durar muito, porque os deuses masculinos em breve vão suplantar o culto da deusa mãe.” Lenoir prossegue dizendo que “a partir do momento em que as cidades se tornam patriarcais, quando o homem domina, quando os sacerdotes são majoritariamente homens, também o céu vai se masculinizar. No início as deusas eram dominantes, mas elas vão se tornar secundárias, como na Mesopotâmia. Estou convencido de que muito dos distúrbios de nossas sociedades estão ligados ao desequilíbrio entre feminino e masculino na humanidade. Por muito tempo o masculino esmagou o feminino e as religiões oriundas do modelo patriarcal tiveram um papel essencial na transmissão desse desequilíbrio.”
    Numa visão mais verotestamentária, percebemos que Deus (um Deus judaico, claro) se revela como o Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Nunca como o Deus de Sara, Rebeca e Raquel. Justamente esta visão ocidental-judaico-cristã (decadente) nos lança sua sombra; nos passa a ideia de uma hermenêutica já pronta elevada ao status de revelação divina, portanto, incontestável. Tudo isso deve obrigatoriamente ser repensado, criticado e, quando necessário, posto em Xeque.
    1. Não reconhecer o valor o ideário feminista é não reconhecer a proposta de Ieshua que promovia com sua vida e atitude, justiça e exaltava valores humanos.
    2. Cristãos que são contrários a movimentos emancipatórios e igualitário, que promovam a paz e a justiça, estão, em última análise, servindo a outro deus ainda que o chamem de Jesus.
    3 .Conceber Deus como homem ou mulher é criar um deus particular. Criar um deus a nossa imagem e semelhança, portanto, um deus que em sum teria também nossa moral.
    Não há dúvida: as evidências mostram de modo conclusivo que Ieshu/Jesus possuía a gama completa das chamadas características “femininas” e “masculinas” em todas as categorias. Qual conclusão que isto sugere? Por um lado, que a divisão característica de acordo com o sexo é bastante artificial, falsa. Ieshua/Jesus teria sido menos do que um ser humano concreto se possuísse apenas a série chamada masculina. De fato, caso possuísse somente uma série, teria ficado tão desequilibrado a ponto de ser um monstro inumano.
    “O que aconteceu frequentemente com a imagem de Ieshua na nossa sociedade tende a acontecer conosco, em maior ou menor grau. Levam-se as mulheres a pensar que devem cultivar apenas suas características femininas e evitar suas características masculinas, e para os homens vale o oposto. Mas a Boa Nova Libertadora, aquilo que Ieshua ensinou e fez, é que para ser o ser humano autêntico, devemos rejeitar a falsa divisão de características psicológicas de acordo com o sexo. Desse modo, acabaremos por conhecer e amar, o nosso eu integrado e verdadeiro e assim seremos capazes de ver a nossa unidade com os outros seres humanos (e de maneira especial, com os oprimidos), com toda a natureza, e em última análise, com a fonte de todas as coisas.” Encerra Leonard Swidler.
    Livros consultados:
    Swidler, Leonard In Ieshua – Jesus histórico Ed. Paulus
    Bomilcar, Nelson (Org) In Melhor da espiritualidade brasileira,O Ed Mundo Cristão
    Bataille, George In Erotismo,O Ed Autêntica

  21. O homem precisa da mulher e a mulher precisa do homem, o homem assumiu uma posição de ponta na sociedade, o que por excesso de imaturidade fez muitos de nós pensar ser superior, o que é questionável, pois nos homens fazemos a guerra enquanto as mulheres promovem a vida. Dou graças a vida por ser homem para poder admirar as mulheres. Acho que as mulheres são capaz de conseguir o que quiserem , basta querer, sabem melhor que os homens como conseguir.
    Sou tendencioso a filoginia, admiro a verdadeira causa feminista.
    Parabéns, a autora, ótimo texto.

  22. Fico realmente muito feliz em ver que no meio cristão existem mulheres que pensam e problematizam seu lugar e seu papel na sociedade, no mundo. Fico extasiado com sua reflexão, pois o que mai vejo no dia a dia, são mulheres negando sua própria existência, sua essência a fim apenas de cumprir um “papel” a que lhes fora imposto, seja por coerção ou mesmo uma coação direta.
    Parabéns pelo texto e observarei com mais carinho este blog.

  23. Achei maravilhoso o texto. Também cresci em lar cristão mas Deus me fez revoltada hahaha não só a mim mas as minhas irmãs também e até a minha mãe, e meu pai é uma bênção e tem compreendido essas coisas. Queria que os cristãos (principalmente evangélicos) abrissem mais a cabeça e pudessem enxergar o papel e a força maravilhosa que Deus deu a mulher! Bjooo

  24. Parabéns pelo texto .Muito pertinente.

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