Sobre fé e transcendência

além da religião

Arquivo para o mês “julho, 2017”

AMOR EMAGRECE

 

ELIANE PINHEIRO

Quando conheço pessoas e vou delas me aproximando, conforme vão gostando de mim, mais me veem menos gorda. E quando passam a me amar, dizem que emagreci. É um amor tão sincero que me amam como se eu fosse magra, de tão legal que sou. Gorda de alma magra. Preto de alma branca. Bicha não afeminada. Nem é tão negra, nem é tão gorda, nem parece sapatão, nem me lembrava que você era umbandista. De tão, tão legal que a gente é.

SOBRE DESEJO

ELIANE PINHEIRO

 

Por que tinha que ser virgem, a santa? Por que as santas devem ser virgens? Castas de toque de outro, do toque secreto de si, dos pensamentos? Porque quanto menos prazer, quanto menos amores, quanto menos gozo, mais a vida se enche de tanto faz, mais prontamente se diz Sim, eis-me aqui.
Só se domina desejo que não existe.
Porque desejo mesmo
que arde
todas sabem: são indomáveis.

 

 

 

 

“Sou homem”, absolve-se o santo homem de deus, arrependido.
Adulterou, fornicou, assediou, abusou, estuprou. Não importa.
A graça do Senhor é infinita. “Pecador sou, careço de perdão”. Levanta-se com o passado apagado, seu gozo é abençoado pela misericórdia abundante de deus. Não o dos gays. Não o das travestis, não o das lésbicas e bissexuais, não o da puta que o fez pecar. Abominação é.
Apela à sua miserável condição humana, sob incontáveis arrependimentos sinceros: o Senhor já nem se lembra mais. Recorre à humanidade para si. Jamais para humanizar. As outras, os outros, que queimem no inferno: em morte e aqui.

Estamos em suas mãos

ELIANE PINHEIRO

 

Nem as questões relacionadas ao mundo do trabalho, nem a exclusividade das tarefas domésticas, nem nosso gozo e sexo, nem o controle de nosso corpo. A luta feminista mais difícil é desentranhar o patriarcado dos nossos afetos, da nossa forma de amar: nisso, nem Frida, nem Simone de Beauvoir são exemplos. Ainda somos tentadas a escamotear relações abusivas com virtuosos “Mas ele”. Gritar contra a opressão material, concreta, nos empodera, nos fortalece, nos agiganta. O que nos apequena e fragiliza ainda está dentro nós, bem lá no fundo de nós, modelada pelo patriarcado: nossos afetos tortos, nossa forma de amar. Eis o grande poder que ainda damos aos homens: sofrer por eles. “Relevem pequenos abusos, machismos mínimos, sutis misoginias, delicados desprezos, poucas subestimações. É isto ou a solidão”, ameaça a menina interior que fomos criadas pra ser. Quanto o quesito é afeto, a libertação é um doloroso parto.
(E mesmo as lésbicas perigam repetir esse padrão do papel macho – fêmea, pai – mãe, provedor – dependente).

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