Sobre fé e transcendência

além da religião

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VAMOS FALAR SOBRE ISSO

ELIANE PINHEIRO

 

Soube da existência do livro “Feridos em nome de Deus”  logo que foi lançado. Prometi a mim mesma que o compraria, que leria. Ficou entre outros tantos de uma lista infinda de obras que necessito ler. E só agora leio pela primeira vez a entrevista da autora, Marília de Camargo César . Senti-me acolhida e justificada, por isso a reproduzo aqui (abaixo, o link da publicação original).

Deve acontecer com vocês também, acontece sempre: às vezes fazemos alguma reflexão ou propomos uma nova leitura sobre coisas que estão tranquilamente acomodadas ao senso comum, seja na política, na religião ou em outra área em que trabalhemos.  As pessoas com quem convivemos nos tratoram ou desqualificam porque não aceitam que pessoas comuns, de vidas comuns, ousem questionar ou reverter a ordem das coisas. Eis que quando alguém com a autoridade de um título, ou de uma condição de destaque, fala exatamente o que você diz, e as mesmas pessoas que te condenavam com veemência, aplaudem ou consentem com a fala de quem tenha certo prestígio.  Gostei muito dessa entrevista e quero ler o livro de Marília de Camargo o quanto antes! Concordo com a autora quando afirma que a negação das dores, a espiritualização das emoções podem causar transtornos mentais. E concordo que o abuso financeiro e emocional praticado pelos evangélicos (salvo exceções) deva ser denunciado. Bom seria que os evangélicos sérios, ao invés de pedirem que se faça silêncio “para que não haja escândalos”, demonstrassem que também se constrangem, que sentem indignação, que não concordam com toda essa vergonha que é feita em nome de Deus.

Mather Luther King, negro, ferido pelo racismo, lutou contra isso. As mulheres feministas, um dia humilhadas pelo machismo, se levantam contra essa opressão.  Muitas pessoas que perderam um ente por câncer, se engajam na luta contra essa doença através de voluntariado ou organizações de outros tipos. Citei apenas alguns exemplos. Mas o que quero dizer é que seria uma postura ética se nós, os que acompanhamos de perto o mal que a igreja evangélica não séria causou à pessoas que conhecemos, ou se nós, os que foram feridos “em nome de Deus”, também tivéssemos a mesma coragem de desmascarar igrejas abusadoras e suas práticas. Ou ainda, como no meu caso, se nós que já estivemos num púlpito ou ensinando nas escolas bíblicas, nos arrependêssemos e buscássemos (se é que é possível), reparar os erros que praticamos de forma sutil: por ter pregado com naturalidade a opressão às mulheres e à comunidade LGBT, por ter incentivado as pessoas a darem dinheiro do pouco que têm. Carregar o peso do silêncio conivente e da culpa é insuportável, pelo menos pra mim, é.

ENTREVISTA – MARÍLIA DE CAMARGO CÉSAR

 

Anna Carocina Negri QUEM É
Marília de Camargo César, 44 anos, jornalista, casada, duas filhasO QUE FEZ
Editora assistente do jornal O Valor, formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper LíberoO QUE PUBLICOU
Seu livro de estreia é Feridos em nome de Deus (editora Mundo Cristão)

 

ÉPOCA – Por que você resolveu abordar esse tema?
Marília de Camargo César – 
Eu parti de uma experiência pessoal, de uma igreja que frequentei durante dez anos. Eu não fui ferida por nenhum pastor, e esse livro não é nenhuma tentativa de um ato heroico, de denúncia. É um alerta, porque eu vi o estado em que ficaram meus amigos que conviviam com certa liderança. Isso me incomodou muito e eu queria entender o que tinha dado errado. Não quero que haja generalizações, porque há bons pastores e boas igrejas. Mas as pessoas que se envolvem em experiências de abusos religiosos ficam marcadas profundamente.

 

ÉPOCA – Qual foi a história que mais a impressionou?
Marília – 
Uma das histórias que mais me tocaram foi a de uma jovem que tem uma doença degenerativa grave. Em uma igreja, ela ouviu que estava curada e que, caso se sentisse doente, era porque não tinha fé suficiente em Deus. Essa moça largou os remédios que eram importantíssimos no tratamento para retardar os efeitos da miastenia grave (doença autoimune que acarreta fraqueza muscular). O médico dela ficou muito bravo, mas ela peitou o médico e chegou a perder os movimentos das pernas. Ela só melhorou depois de fazer terapia. Entendeu que não precisava se livrar da doença para ser uma boa pessoa.

 

ÉPOCA – Que tipo de experiência você considera como abuso religioso e que marcas são essas?
Marília – 
Meu livro é sobre abusos emocionais que acontecem na esteira do crescimento acelerado da população de evangélicos no Brasil. É a intromissão radical do pastor na vida das pessoas. Um exemplo: uma missionária que apanha do marido sistematicamente e vai parar no hospital. Quando ela procura um pastor para se aconselhar, ele fala assim para ela: “Minha filha, você deve estar fazendo alguma coisa errada, é por isso que o teu marido está se sentindo diminuído e por isso ele está te batendo. Você tem de se submeter a ele, porque biblicamente a mulher tem de se submeter ao cabeça da casa. Então, essa mulher, que está com a autoestima lá embaixo, que apanha do marido – inclusive pelo Código Civil Brasileiro ele teria de ser punido – pede um conselho pastoral e o pastor acaba pisando mais nela ainda. E ele usa a Bíblia para isso. Esse é um tipo de abuso que não está apenas na igreja pentecostal ou neopentecostal, como dizem. É um caso da Igreja Batista, em que, teoricamente, os protestantes históricos têm uma reputação melhor.

 

ÉPOCA – Seu livro questiona a autoridade pastoral. Por quê?
Marília – 
As igrejas que estão surgindo, as neopentecostais, e não as históricas, como a presbiteriana, a batista, a metodista, que pregam a teologia da prosperidade, estão retomando a figura do “ungido de Deus”. É a figura do profeta, do sacerdote, que existia no Antigo Testamento. No Novo Testamento, não existe mais isto. Jesus Cristo é o único mediador. Então o pastor dessas igrejas mais novas está se tornando o mediador. Para todos os detalhes da sua vida, você precisa dele. Se você recebeu uma oferta de emprego, o pastor pode dizer se deve ou não aceitá-la. Se estiver paquerando alguém, vai dizer se deve ou não namorar aquela pessoa. O pastor, em vez de ensinar a desenvolver a espiritualidade, determina se aquele homem ou aquela mulher é a pessoa da sua vida. E o pastor está gostando de mandar na vida dos outros, uma atitude que abre um terreno amplo para o abuso.

 

ÉPOCA – Você também fala que não é só culpa do pastor.
Marília – 
Assim como existe a onipotência pastoral, existe a infantilidade emocional do rebanho, que é o que o Sérgio Franco, um dos pastores psicanalistas entrevistados no livro, fala. A grande crítica do Freud em relação à religião era essa. Ele dizia que a religião infantiliza as pessoas, porque você está sempre transferindo as suas decisões de adulto – que são difíceis – e a figura do sagrado, no caso aqui o líder religioso, para a figura do pai ou da mãe – o pastor, a pastora. É a tendência do ser humano em transferir responsabilidade. O pastor virou um oráculo. É mais fácil ter alguém, um bode expiatório, para pôr a culpa nas decisões erradas tomadas.

 

“O pastor está gostando de mandar na vida dos outros
e receber presentes. Isso abre espaço para os abusos”

 

ÉPOCA – Quais são os grandes males espirituais que você testemunhou?
Marília – 
Eu vi casamentos se desfazer, porque se mantinham em bases ilusórias. Vi também pessoas dizendo que fazer terapia é coisa do Diabo. Há pastores contra a terapia que afirmam que ela fortalece a alma e a alma tem de ser fraca; o espírito é que tem que ser forte. E dizem isso supostamente apoiados em textos bíblicos. Dizem que as emoções têm de ser abafadas e apenas o espírito ser fortalecido. E o que acontece com uma teologia dessas? Psicoses potenciais na vida das pessoas que ficam abafando as emoções. As pessoas que aprenderam essa teologia e não tiveram senso crítico para combatê-la ficaram muito mal. Conheci um rapaz com muitos problemas de depressão e de autoestima que encontrou na igreja um ambiente acolhedor. Ele dizia ter ressuscitado emocionalmente. Só que com o passar dos anos, o pastor se apoderou dele. Mas ele começou a perceber que esse pastor é gente, que gosta de ganhar presentes e que usa a Bíblia para se justificar. Uma das histórias que mais me tocou foi a de uma jovem que tem uma doença degenerativa grave. Ela foi para uma dessas igrejas e ouviu que se estivesse sentindo ainda doente era porque não tinha fé suficiente em Deus. Essa moça largou os remédios que eram importantíssimos no tratamento para retardar os efeitos da miastenia grave (doença auto-imune que acarreta fraqueza muscular). O médico dela ficou muito bravo e não a autorizou. Mesmo assim, ela peitou o médico e chegou a perder os movimentos das pernas. Ela só melhorou depois de fazer terapia. Ela entendeu que não precisava se livrar da doença para ser uma boa pessoa.

 

ÉPOCA – Por que demora tanto tempo para a pessoa perceber que está sendo vítima?
Marília – 
Os abusos não acontecem da noite para o dia. A pessoa que está sendo discipulada, que aprende com o pastor o que a Bíblia diz, desenvolve esse relacionamento aos poucos. No primeiro momento, ela idealiza a figura do líder, como alguém maduro, bem preparado. É aquilo que fazemos quando estamos apaixonados: não vemos os defeitos. O fiel vê esse líder como um intermediário, como um representante de Deus que tem recados para a vida dele, um guru. E o pastor vai ganhando a confiança dele num crescendo, como numa amizade. Esse líder, que acredita que Deus o usa para mandar recados para sua congregação, passa a ser uma referência na vida do fiel. O fiel, pro sua vez, sente uma grande gratidão por aquele que o ajudou a mudar sua vida para melhor. Ele se sente devedor do pastor e começa, então, a dar presentes. O fiel quer abençoar o líder porque largou as drogas, ou parou de beber, ou parou de bater na mulher, ou porque arrumou um emprego e está andando na linha. E começa a dar presentes de acordo com suas posses. Se for um grande empresário, ele dá um carro importado para o pastor. Isso eu vi acontecer várias vezes. O pastor, por sua vez, gosta de receber esses presentes. É quando a relação se contamina, se torna promíscua. E o pastor usa a Bíblia para dizer que esse ato é bíblico. O poder está no uso da Bíblia para legitimar essas práticas.

 

ÉPOCA – Qual é o limite da autoridade pastoral?
Marília – 
O pastor tem o direito de mostrar na Bíblia o que ela diz sobre certo tema. Como um bom amigo, ele tem o direito de dar um conselho. Mas ele tem de deixar claro que aquilo é apenas um conselho. Pode até falar que o resultado disso ou daquilo pode ser ruim para a vida do fiel. Mas ele não pode mandar a pessoa fazer algo em nome de Deus. O que mais fere as pessoas é ouvir uma ordem em nome de Deus. Se é Deus, então prova! Se Deus fala para o pastor, por que Ele não fala para o fiel? Eles estão sendo extremamente autoritários.

 

ÉPOCA – Você afirma que muitos dos pastores não agem por má-fé, mas por uma visão messiânica. Explique.
Marília – 
É uma visão messiânica para com seu rebanho. Lutero (teólogo alemão responsável pela reforma protestante no século XVI) deve estar dando voltas na tumba. Porque o pastor evangélico virou um papa que é a figura mais criticada no catolicismo, o inerrante. E não existe essa figura, porque somos todos errantes, seres faltantes, como já dizia Freud. Pastor é gente. E é esse pastor messiânico que está crescendo no evangelismo. Existe uma ruptura entre o Antigo e o Novo Testamento, que é a cruz. A reforma de Lutero veio para acabar com a figura intermediária e a partir dela veio a doutrina do sacerdócio universal. Todos têm acesso a Deus. Uma das fontes do livro disse que precisamos de uma nova reforma e eu concordo com ela. Essa hierarquização da experiência religiosa, que o protestante tanto combateu no catolicismo, está se propagando. Você não pode mais ter a conversa direta com o divino. Porque tem aquela coisa da “oração forte” do pastor. Você acha que ele ora mais que você, que ele tem alguma vantagem espiritual e, se você gruda nele, pega uma lasquinha. Isso não existe. Somos todos iguais perante Deus.

 

ÉPOCA – Se a igreja for questionada em seus dogmas, ela não deixará de ser igreja?
Marília – 
Eu não acho isso. A igreja tem mesmo de ser questionada, inclusive há pensadores cristãos contemporâneos que questionam o modelo de igreja que estamos vivendo e as teologias distorcidas, como a teologia da prosperidade, que são predominantemente neopentecostais e ensinam essa grande barganha. Se você não der o dízimo, Deus vai mandar o gafanhoto. Simbolicamente falando, Ele vai te amaldiçoar. Hoje o fiel se relaciona com o Divino para as coisas darem certo. Ele não se relaciona pelo amor. Essa é uma das grandes distorções.

(…)

ÉPOCA – No livro você dá alguns alertas para não cair no abuso religioso. Fale deles.
Marília – Desconfie de quem leva a glória para si. Um conselho é prestar atenção nas visões megalomaníacas. Uma das características de quem abusa é querer que a igreja se encaixe em suas visões, como querer ganhar o Brasil para Cristo e colocar metas para isso. E aquele que não se encaixar é um rebelde, um feiticeiro. Tome cuidado com esse homem. Outra estratégia é perguntar a si mesmo se tem medo do pastor ou se pode discordar dele. A pessoa que tem potencial para abusar não aceita que discorde dela, porque é autoritária. Outra situação é observar se o pastor gosta de dinheiro e ver os sinais de enriquecimento ilícito. São esses geralmente os que adoram ser abençoados e ganhar presentes. Cuidado com esse cara.
Disponível completo em: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI80245-15228,00.html . Acesso em 10/07/2014.
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MORTE E ABSOLVIÇÃO

ELIANE PINHEIRO

Perdoar

a quem perdeu

o poder

de ferir

ESCANDALIZADA



`A medida que mais mergulho no evangelho mais escandalizada eu fico com o amor do Pai, escandalizada com a entrega de Jesus, com sua troca desvantajosa:  a cruz por nós. Porque quanto mais me relaciono com o Espírito Santo, mais ele vai mostrando a mim quem sou. Eu não sabia que eu não prestava. Não dessa forma. Com muita auto-justificação admitia alguns defeitinhos, dos quais acabava por me absolver. Na mão do oleiro as coisas mudam. A auto-absolvição não cola. Eu não presto! Vocês, meus amigos que me amam, vocês não sabem o quanto eu não presto. Ninguém conhece, escondidinho e perfeitamente disfarçado, as vinganças, jugalmentos, crueldades e manipulações que carrego dentro de mim. E o escândalo não está aí. Não me escandalizo com meus pecados ocultos. Escandalizo-me com a presença real do Espírito Santo em mim, com as visões, com as revelações que ele tem me dado. Estou tão boquiaberta com o amor do Pai! Nunca sua voz me foi tão audível, nunca as revelações foram tão contundentes. Nunca ministrei outras pessoas de forma tão simples, mas que surtisse tanto efeito, desse tanto fruto. O evangelho de verdade tem me feito refém da Graça, da misericórdia de seu amor. Aqui não há culpa, não há auto-condenação. Há escândalo com a Graça. Escândalo com a Graça. Se alguém me apontasse tais falhas, vitimada e ferida, criaria uma justificativa perfeitamente articulada e crível. Mas quando é o Oleiro, nossos argumentos são inexistentes. Só arrependimento, e mãos do oleiro trabalhando no barro do nosso caráter. Isso é Graça. Graça. Não tinha entendido na profundidade o Apóstolo Paulo. Mas agora compreendo. O amor de Cristo no constrange. Mesmo.

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