Sobre fé e transcendência

além da religião

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Trechos das obras de Mia Couto que me encantam

Sem título

“Parecia que estava em véspera de lágrima. Mas não, simplesmente virou o rosto. E se afastou, cabisbaixa. Herdei de minha mãe esse modo de entristecer: só quando não choro eu acredito em minhas lágrimas” (1996).

“Temporina se encostou na cômoda, olhou mais longe que seu olhar. Reinava em seu rosto um estranho sorriso. e parecia aquela felicidade que eu já viraem rostos idosos: o simples feito de morrer mais tarde, depois de terminado o tempo” (2005, p.61).

“Hortência. Não era em vão que tinha o nome de flor. Não que fosse bonita. Todavia, ficava na varanda o dia inteiro, fingindo olhar o tempo. Não era no tempo que punha o olhar. Porque, a bem dizer, ela ganhara acesso a outras visões” (2005, p. 63).

“Deixei os dois na varanda e fiquei no pátio, a respeitosa distância. De longe, ainda vi como Temporina sentava no colo do italiano e como seuscorpos seenleavam […]. Recueimeus olhos, recolhi meu enleio. O  italiano havia de descer e eu retomaria meus serviços.Agora, por certo, ele não carecia de tradutor” (2005, p.68).

“Desculpe, a franqueza não é fraqueza. O marxismo seja louvado, mas há muita coisa escondida nestes silêncios africanos. Por baixo da base material do mundo devem existir forças que não estão à mão de serem pensadas” (2005, p. 74).

“Avançando a mão em concha, ela me tocou. E sabe onde me tocou, Excelência? No seio, me acarinhou no seio. Eu amansei, cheio de respiração. O meu seio, Excelência, é o ponto por onde me desatam o bicho, como esse botãozinho que acende a voz do rádio. Sorri. Deveria dar a possibilidade ao corpo” (2005, p.77).

“Numa das seguintes noites, escuras de perder o próprio nariz, tive, quem sabe, um sonho. O mar parava, imovente. As ondas se aplanavam, seu rugido emudecia. Havia uma calmia dessas de que precedem o nascer do mundo. Então, súbito e inesperado, das fundezas emergiam os afogados (…). Entre eles, estava meu pai, idoso como não o tínhamos deixado. Chamou-me, saudou-me, sem nenhum afeto.
[…] Eu esperava dele um pequeno sentimento paterno, por deslize que fosse. Mas nem agora, regressado, ele se dedicava. Se limitava a prosapiar sobre o sitio para onde transitara. Não estava satisfeito com os aléns.
[…] Mesmo depois de morto, chegado em mim só em sonho, me ignorava” (2007).

“(…) Certa vez, desaguou na praia um desses mamíferos, enormão. Vinha morrer na areia. Respirava aos custo, como se puxasse o mundo nas suas costelas. A baleia morimbundava, esgoniada. O povo acorreu para lhe tirar carnes, fatias e fatias de quilos. Ainda não morrera e já seus ossos brilhavam no sol. Agora eu via meu país como uma dessas baleias que vêm agonizar na praias. A morte nem sucedera e já as facas lhe roubavam pedaços, cada um tentando o mais para si. Como se aquele fosse o último animal, a derradeira oportunidade de ganhar uma porção” (2007).

“Trazer uma mulata para o seio familiar era uma ousadia, mais que isso: uma traição. “Mas ela é quase negra”, ainda argumentou. “Os mulatos são pretos só quando lhes convém”, foi a resposta”(2008).

“Uma coisa aprendi na vida. Quem tem medo da infelicidade nunca chega a ser feliz” (2008).

“A esposa, Dona Mundinha, espera no corredor. A obediência está escrita na curva de suas costas” (2008).

“(…) Há poucos anos o casal se apartou, cada qual em seu quarto, cada qual em seu sonho.
– Agora somos como o dedo e o anel: não nos fazemos falta, mas não vivemos longe um do outro.
(…) No resto, Mundinha partilha a condição das demais mulheres da Vila: envergonhada de ter nascido, temente de viver e triste por não saber morrer” (2008).

“- Sonhar me deixa muito cansado. Dá um trabalho danado, sonhar. Cure-me de sonhar, Doutor.
– Sonhar é uma cura.
(…)
– Todos elogiam o sonho, que é o compensar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa viver para descansar dos sonhos” 2008.

“- Bartolomeu falou de pagamentos. Ele sabe alguma coisa?
– Fulano não sabe de nada. Quem não sabe de nada, desconfia de tudo!” (2008).

COUTO, Mia. A Varanda do Frangipani.  São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

________. O último voo do flamingo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

_________. Terra sonâmbula. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

_________. Venenos de Deus, remédios do Diabo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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