Sobre fé e transcendência

além da religião

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O QUE ME RESTA

ELIANE PINHEIRO

Li hoje uma entrevista em que o pastor Rob Bell diz abertamente que é a favor do casamento entre homossexuais. Sim, estou sempre atrasadinha, a entrevista bombou em 2012, na revista Veja, e só agora eu soube, por acaso, navegando na internet. Ainda assim fiquei contente, porque é mais um cristão que se posiciona claramente contra a opressão. Não pude evitar de me imaginar lendo uma declaração como essa dez anos atrás. Certamente chamaria Rob Bell de herege ou apóstata.

Os inquietos vivem em piracema. É natural do peixe nadar rio acima, contra o caminho óbvio do rio, para que sua vida ganhe vida, para que seja fecunda. Assim também acontece com os inquietos, não dá pra negarem a própria natureza, não conseguem viver no conforto do não querer saber porque que as coisas são como são.

Cresci numa igreja pentecostal. Não era de todo ruim. Mas o fato de não ser de todo boa me inquietava. Por que Deus me mandaria para o inferno se eu colocasse uma calça, cortasse meu cabelo ou fosse à praia? Por que Deus jamais se irava com o pecado dos rapazes, por que Deus era tão machista? Fui procurar respostas, nunca consegui calar minhas perguntas. Saí daquela igreja, ainda meninona. Escandalizei meia dúzia que jamais entendeu porque eu rompia com minha igreja “de berço”, onde “fui ensinada sobre as coisas de Deus”. Era uma escolha a fazer: suportar os olhares de acusação de “meus irmãos e irmãs na fé” ou suportar meus barulhos interiores.

Conheci uma igreja neopentecostal: fiquei encantada! Lá Deus achava lindo quem dançava, quem fazia tatuagem, quem surfava e quem falava gírias. Foi onde encontrei o homem que hoje é meu companheiro. Foi lá que ouvi falar, pela primeira vez, em “cura emocional”. Usei e abusei da cura que Deus teria pra me dar. E foi lindo. Feio mesmo era ouvir, culto após culto, que o todo poderoso só conhecia a linguagem do toma-lá-da-cá, da barganha, da oferta em dinheiro, em vales, cartões, cheques, jóias ou dívidas assumidas em carnês de suaves prestações. No silêncio do meu quarto, entretanto, Paulo Freire me enchia o espírito de esperança, alegria, de desejo por um mundo mais bonito. Novo tempo de escolher entre ficar ou sair. Jesus nunca amarrou ninguém a si, depois do milagre, dizia: “vai em paz, a TUA fé te curou, a TUA fé te salvou”. Era  a MINHA fé, era a MINHA vida, eu poderia, mais uma vez, sair em paz.

Não consigo não querer entender, não consigo me impor limite: “vá apenas até aqui porque Deus não pode ser questionado”. A fé que teme ser questionada é porque é frágil. E o ateísmo pra mim, não é uma aberração, pelo contrário.  Talvez porque tive a sorte de conhecer ateus éticos e cristãos fascistas, tornado a relativização fácil. Corri e talvez ainda corra o “risco” de ser ateia, desde que essa seja a minha verdade ( Minha neurose primeira é querer viver minhas verdades, ainda que sejam  verdades feias).

Todas as minhas experiências na religião eram de verdade, porque meu coração era sincero. Em sinceridade derramei lágrimas abundantes durantes os cultos. Agora sei que o que me fazia chorar era a ideia religiosa de que eu era uma grande pecadora, uma criminosa que deveria pagar pelos pecados cometidos e que, na contramão de minha lista infinda de acusações, Deus , ao invés de me fulminar, me perdoava. Eu era grata por ser absolvida de  crimes que não cometera. Eu realmente me sentia em dívida por ser humana e por Deus aceitar eu não ser divina; era assim que a religião dizia que ele exigia que fôssemos; era isso que eu preguei inúmeras vezes para as pessoas. Em outras ocasiões, chorava por me emocionar com uma experiência genuína, não nego que as tenha vivido e que foram especiais.

Minhas inquietações não me permitem negar minha verdade de agora para sustentar minhas velhas verdades. “O mundo não é, está sendo”, escreveu Paulo Freire. Então a gente também não é, está sendo.

Nunca tive medo de perder a fé, tinha medo de estar errada ao negar a possibilidade, ainda que distante, de que Deus fosse apenas uma viva imaginação, apenas um mito morto. Aí descobri o caminho místico de encontrar respostas no Deus que habita dentro de mim. Desde minha primeira incerteza, desde que perguntei a Deus sobre coisas e  fui sendo respondida… Peguei gosto! Deus em que creio por causa de Jesus Cristo e dos evangelhos me mostrou que ele é absolutamente maior que os dogmas, que as religiões e que a bíblia. A bíblia poderia talvez me dar algumas pistas sobre Deus, mas ele não poderia caber num livro, tampouco ser refém dele. Se Abba pudesse ser refém de algo, seria do amor. Todas as leis se cumprem numa só palavra: amar. E a radicalidade do evangelho é quase um desaforo: amar não é encontrar-se em estado de paixão permanente, mas é ação de estender a mão, de não julgar e de, mesmo não “sentindo”, agir para o bem. Do pouco que aprendi do Deus revelado por Jesus é que não se faz justiça por bondade, mas porque é o certo, porque justiça não é favor, não é caridade, é amor não idealizado, não é amor nos moldes românticos. Pode ser um pequeno gesto, ou uma grande revolução, mas sempre é ação. Ainda me bato na tentativa de aprender a amar assim.

A sincronicidade fez o resto: acabei conhecendo os textos de Rubem Alves, Ricardo Gondim, Henri Nowen, Paulo Brabo, Frei Betto, Leonardo Boff, Philip Yansei , Brennan Menning (esses dois apresentados por minha prima)…, quando passei a ouvir Caio Fábio e Rob  Bell, senti-me espiritualmente ligada à compreensão de transcendência que eles apresentavam, senti-me agasalhada na descoberta de que minhas descobertas recentes eram velhas descobertas de muita gente. Bem mais tarde fui descobrindo (no dia de hoje de novo, inclusive), que o Deus que tenho experimentado é universal, o que realmente me conforta. Sinto-me mais esperançosa ao ver mais e mais cristãos e cristãs nadando contra a corrente do tradicionalismo religioso, do moralismo.

O evangelho diluiu medos e culpas. Ao perder o medo de Deus, perdi o medo de mim. Conto tudo pra Ele desde sempre: coisa comuns, coisas vergonhosas, coisas profanas e coisas santas. E não tenho um pingo de vergonha dele, nem de mim. Só me arrependo quando me arrependo, porque Abba não me chantageia. Essa fidelidade dele, essa presença que assumo ser insana, faz-me ser atraída ao Cristo porque me ressignifica como Eliane. Somente quando atendi ao conselho de Jesus de que “o reino de Deus está dentro de nós”, somente depois que acreditei que o evangelho é simples, é que me tornei autônoma,  jamais auto-suficiente.

Minhas certezas são incertas, esse clichê é perfeito. Penso que a espiritualidade só me mostra os que meus olhos podem enxergar. Há dez anos a ideia de inferno, de pecado, de religião e de bíblia pra mim, era a que me era possível conceber. Há cinco anos as ideias mudaram ainda mais… Conversar com pessoas, ouvir outras experiências, inevitavelmente me provoca a seguir revisando meus achismos… Parece que, quanto mais reconheço minha limitação humana, mais admito carecer de um Deus que ama. Ou é isto, ou é nada. Como disse Ricardo Gondim, numa pregação que ouvi no rádio, já nem me lembro exatamente quando: “um Deus que não seja melhor [mais bondoso, mais amoroso, mais coerente] do que um ser humano bom, é um deus medíocre”. O Abba que experimento não é medíocre. Nele cabem gays, lésbicas, héteros, castos,  hindús, ateus, muçulmanos, umbandistas, putas, crentes e eu, inclusive. Ou é isto, ou tô fudida.

Eu e o Rob Bell.

Entrevista disponível em :

http://www.esextante.com.br/site/newsletter/2012/2012_11_26Amor/AmorVence_Veja.pdf

Acesso em 11/08/2014

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VAMOS FALAR SOBRE ISSO

ELIANE PINHEIRO

 

Soube da existência do livro “Feridos em nome de Deus”  logo que foi lançado. Prometi a mim mesma que o compraria, que leria. Ficou entre outros tantos de uma lista infinda de obras que necessito ler. E só agora leio pela primeira vez a entrevista da autora, Marília de Camargo César . Senti-me acolhida e justificada, por isso a reproduzo aqui (abaixo, o link da publicação original).

Deve acontecer com vocês também, acontece sempre: às vezes fazemos alguma reflexão ou propomos uma nova leitura sobre coisas que estão tranquilamente acomodadas ao senso comum, seja na política, na religião ou em outra área em que trabalhemos.  As pessoas com quem convivemos nos tratoram ou desqualificam porque não aceitam que pessoas comuns, de vidas comuns, ousem questionar ou reverter a ordem das coisas. Eis que quando alguém com a autoridade de um título, ou de uma condição de destaque, fala exatamente o que você diz, e as mesmas pessoas que te condenavam com veemência, aplaudem ou consentem com a fala de quem tenha certo prestígio.  Gostei muito dessa entrevista e quero ler o livro de Marília de Camargo o quanto antes! Concordo com a autora quando afirma que a negação das dores, a espiritualização das emoções podem causar transtornos mentais. E concordo que o abuso financeiro e emocional praticado pelos evangélicos (salvo exceções) deva ser denunciado. Bom seria que os evangélicos sérios, ao invés de pedirem que se faça silêncio “para que não haja escândalos”, demonstrassem que também se constrangem, que sentem indignação, que não concordam com toda essa vergonha que é feita em nome de Deus.

Mather Luther King, negro, ferido pelo racismo, lutou contra isso. As mulheres feministas, um dia humilhadas pelo machismo, se levantam contra essa opressão.  Muitas pessoas que perderam um ente por câncer, se engajam na luta contra essa doença através de voluntariado ou organizações de outros tipos. Citei apenas alguns exemplos. Mas o que quero dizer é que seria uma postura ética se nós, os que acompanhamos de perto o mal que a igreja evangélica não séria causou à pessoas que conhecemos, ou se nós, os que foram feridos “em nome de Deus”, também tivéssemos a mesma coragem de desmascarar igrejas abusadoras e suas práticas. Ou ainda, como no meu caso, se nós que já estivemos num púlpito ou ensinando nas escolas bíblicas, nos arrependêssemos e buscássemos (se é que é possível), reparar os erros que praticamos de forma sutil: por ter pregado com naturalidade a opressão às mulheres e à comunidade LGBT, por ter incentivado as pessoas a darem dinheiro do pouco que têm. Carregar o peso do silêncio conivente e da culpa é insuportável, pelo menos pra mim, é.

ENTREVISTA – MARÍLIA DE CAMARGO CÉSAR

 

Anna Carocina Negri QUEM É
Marília de Camargo César, 44 anos, jornalista, casada, duas filhasO QUE FEZ
Editora assistente do jornal O Valor, formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper LíberoO QUE PUBLICOU
Seu livro de estreia é Feridos em nome de Deus (editora Mundo Cristão)

 

ÉPOCA – Por que você resolveu abordar esse tema?
Marília de Camargo César – 
Eu parti de uma experiência pessoal, de uma igreja que frequentei durante dez anos. Eu não fui ferida por nenhum pastor, e esse livro não é nenhuma tentativa de um ato heroico, de denúncia. É um alerta, porque eu vi o estado em que ficaram meus amigos que conviviam com certa liderança. Isso me incomodou muito e eu queria entender o que tinha dado errado. Não quero que haja generalizações, porque há bons pastores e boas igrejas. Mas as pessoas que se envolvem em experiências de abusos religiosos ficam marcadas profundamente.

 

ÉPOCA – Qual foi a história que mais a impressionou?
Marília – 
Uma das histórias que mais me tocaram foi a de uma jovem que tem uma doença degenerativa grave. Em uma igreja, ela ouviu que estava curada e que, caso se sentisse doente, era porque não tinha fé suficiente em Deus. Essa moça largou os remédios que eram importantíssimos no tratamento para retardar os efeitos da miastenia grave (doença autoimune que acarreta fraqueza muscular). O médico dela ficou muito bravo, mas ela peitou o médico e chegou a perder os movimentos das pernas. Ela só melhorou depois de fazer terapia. Entendeu que não precisava se livrar da doença para ser uma boa pessoa.

 

ÉPOCA – Que tipo de experiência você considera como abuso religioso e que marcas são essas?
Marília – 
Meu livro é sobre abusos emocionais que acontecem na esteira do crescimento acelerado da população de evangélicos no Brasil. É a intromissão radical do pastor na vida das pessoas. Um exemplo: uma missionária que apanha do marido sistematicamente e vai parar no hospital. Quando ela procura um pastor para se aconselhar, ele fala assim para ela: “Minha filha, você deve estar fazendo alguma coisa errada, é por isso que o teu marido está se sentindo diminuído e por isso ele está te batendo. Você tem de se submeter a ele, porque biblicamente a mulher tem de se submeter ao cabeça da casa. Então, essa mulher, que está com a autoestima lá embaixo, que apanha do marido – inclusive pelo Código Civil Brasileiro ele teria de ser punido – pede um conselho pastoral e o pastor acaba pisando mais nela ainda. E ele usa a Bíblia para isso. Esse é um tipo de abuso que não está apenas na igreja pentecostal ou neopentecostal, como dizem. É um caso da Igreja Batista, em que, teoricamente, os protestantes históricos têm uma reputação melhor.

 

ÉPOCA – Seu livro questiona a autoridade pastoral. Por quê?
Marília – 
As igrejas que estão surgindo, as neopentecostais, e não as históricas, como a presbiteriana, a batista, a metodista, que pregam a teologia da prosperidade, estão retomando a figura do “ungido de Deus”. É a figura do profeta, do sacerdote, que existia no Antigo Testamento. No Novo Testamento, não existe mais isto. Jesus Cristo é o único mediador. Então o pastor dessas igrejas mais novas está se tornando o mediador. Para todos os detalhes da sua vida, você precisa dele. Se você recebeu uma oferta de emprego, o pastor pode dizer se deve ou não aceitá-la. Se estiver paquerando alguém, vai dizer se deve ou não namorar aquela pessoa. O pastor, em vez de ensinar a desenvolver a espiritualidade, determina se aquele homem ou aquela mulher é a pessoa da sua vida. E o pastor está gostando de mandar na vida dos outros, uma atitude que abre um terreno amplo para o abuso.

 

ÉPOCA – Você também fala que não é só culpa do pastor.
Marília – 
Assim como existe a onipotência pastoral, existe a infantilidade emocional do rebanho, que é o que o Sérgio Franco, um dos pastores psicanalistas entrevistados no livro, fala. A grande crítica do Freud em relação à religião era essa. Ele dizia que a religião infantiliza as pessoas, porque você está sempre transferindo as suas decisões de adulto – que são difíceis – e a figura do sagrado, no caso aqui o líder religioso, para a figura do pai ou da mãe – o pastor, a pastora. É a tendência do ser humano em transferir responsabilidade. O pastor virou um oráculo. É mais fácil ter alguém, um bode expiatório, para pôr a culpa nas decisões erradas tomadas.

 

“O pastor está gostando de mandar na vida dos outros
e receber presentes. Isso abre espaço para os abusos”

 

ÉPOCA – Quais são os grandes males espirituais que você testemunhou?
Marília – 
Eu vi casamentos se desfazer, porque se mantinham em bases ilusórias. Vi também pessoas dizendo que fazer terapia é coisa do Diabo. Há pastores contra a terapia que afirmam que ela fortalece a alma e a alma tem de ser fraca; o espírito é que tem que ser forte. E dizem isso supostamente apoiados em textos bíblicos. Dizem que as emoções têm de ser abafadas e apenas o espírito ser fortalecido. E o que acontece com uma teologia dessas? Psicoses potenciais na vida das pessoas que ficam abafando as emoções. As pessoas que aprenderam essa teologia e não tiveram senso crítico para combatê-la ficaram muito mal. Conheci um rapaz com muitos problemas de depressão e de autoestima que encontrou na igreja um ambiente acolhedor. Ele dizia ter ressuscitado emocionalmente. Só que com o passar dos anos, o pastor se apoderou dele. Mas ele começou a perceber que esse pastor é gente, que gosta de ganhar presentes e que usa a Bíblia para se justificar. Uma das histórias que mais me tocou foi a de uma jovem que tem uma doença degenerativa grave. Ela foi para uma dessas igrejas e ouviu que se estivesse sentindo ainda doente era porque não tinha fé suficiente em Deus. Essa moça largou os remédios que eram importantíssimos no tratamento para retardar os efeitos da miastenia grave (doença auto-imune que acarreta fraqueza muscular). O médico dela ficou muito bravo e não a autorizou. Mesmo assim, ela peitou o médico e chegou a perder os movimentos das pernas. Ela só melhorou depois de fazer terapia. Ela entendeu que não precisava se livrar da doença para ser uma boa pessoa.

 

ÉPOCA – Por que demora tanto tempo para a pessoa perceber que está sendo vítima?
Marília – 
Os abusos não acontecem da noite para o dia. A pessoa que está sendo discipulada, que aprende com o pastor o que a Bíblia diz, desenvolve esse relacionamento aos poucos. No primeiro momento, ela idealiza a figura do líder, como alguém maduro, bem preparado. É aquilo que fazemos quando estamos apaixonados: não vemos os defeitos. O fiel vê esse líder como um intermediário, como um representante de Deus que tem recados para a vida dele, um guru. E o pastor vai ganhando a confiança dele num crescendo, como numa amizade. Esse líder, que acredita que Deus o usa para mandar recados para sua congregação, passa a ser uma referência na vida do fiel. O fiel, pro sua vez, sente uma grande gratidão por aquele que o ajudou a mudar sua vida para melhor. Ele se sente devedor do pastor e começa, então, a dar presentes. O fiel quer abençoar o líder porque largou as drogas, ou parou de beber, ou parou de bater na mulher, ou porque arrumou um emprego e está andando na linha. E começa a dar presentes de acordo com suas posses. Se for um grande empresário, ele dá um carro importado para o pastor. Isso eu vi acontecer várias vezes. O pastor, por sua vez, gosta de receber esses presentes. É quando a relação se contamina, se torna promíscua. E o pastor usa a Bíblia para dizer que esse ato é bíblico. O poder está no uso da Bíblia para legitimar essas práticas.

 

ÉPOCA – Qual é o limite da autoridade pastoral?
Marília – 
O pastor tem o direito de mostrar na Bíblia o que ela diz sobre certo tema. Como um bom amigo, ele tem o direito de dar um conselho. Mas ele tem de deixar claro que aquilo é apenas um conselho. Pode até falar que o resultado disso ou daquilo pode ser ruim para a vida do fiel. Mas ele não pode mandar a pessoa fazer algo em nome de Deus. O que mais fere as pessoas é ouvir uma ordem em nome de Deus. Se é Deus, então prova! Se Deus fala para o pastor, por que Ele não fala para o fiel? Eles estão sendo extremamente autoritários.

 

ÉPOCA – Você afirma que muitos dos pastores não agem por má-fé, mas por uma visão messiânica. Explique.
Marília – 
É uma visão messiânica para com seu rebanho. Lutero (teólogo alemão responsável pela reforma protestante no século XVI) deve estar dando voltas na tumba. Porque o pastor evangélico virou um papa que é a figura mais criticada no catolicismo, o inerrante. E não existe essa figura, porque somos todos errantes, seres faltantes, como já dizia Freud. Pastor é gente. E é esse pastor messiânico que está crescendo no evangelismo. Existe uma ruptura entre o Antigo e o Novo Testamento, que é a cruz. A reforma de Lutero veio para acabar com a figura intermediária e a partir dela veio a doutrina do sacerdócio universal. Todos têm acesso a Deus. Uma das fontes do livro disse que precisamos de uma nova reforma e eu concordo com ela. Essa hierarquização da experiência religiosa, que o protestante tanto combateu no catolicismo, está se propagando. Você não pode mais ter a conversa direta com o divino. Porque tem aquela coisa da “oração forte” do pastor. Você acha que ele ora mais que você, que ele tem alguma vantagem espiritual e, se você gruda nele, pega uma lasquinha. Isso não existe. Somos todos iguais perante Deus.

 

ÉPOCA – Se a igreja for questionada em seus dogmas, ela não deixará de ser igreja?
Marília – 
Eu não acho isso. A igreja tem mesmo de ser questionada, inclusive há pensadores cristãos contemporâneos que questionam o modelo de igreja que estamos vivendo e as teologias distorcidas, como a teologia da prosperidade, que são predominantemente neopentecostais e ensinam essa grande barganha. Se você não der o dízimo, Deus vai mandar o gafanhoto. Simbolicamente falando, Ele vai te amaldiçoar. Hoje o fiel se relaciona com o Divino para as coisas darem certo. Ele não se relaciona pelo amor. Essa é uma das grandes distorções.

(…)

ÉPOCA – No livro você dá alguns alertas para não cair no abuso religioso. Fale deles.
Marília – Desconfie de quem leva a glória para si. Um conselho é prestar atenção nas visões megalomaníacas. Uma das características de quem abusa é querer que a igreja se encaixe em suas visões, como querer ganhar o Brasil para Cristo e colocar metas para isso. E aquele que não se encaixar é um rebelde, um feiticeiro. Tome cuidado com esse homem. Outra estratégia é perguntar a si mesmo se tem medo do pastor ou se pode discordar dele. A pessoa que tem potencial para abusar não aceita que discorde dela, porque é autoritária. Outra situação é observar se o pastor gosta de dinheiro e ver os sinais de enriquecimento ilícito. São esses geralmente os que adoram ser abençoados e ganhar presentes. Cuidado com esse cara.
Disponível completo em: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI80245-15228,00.html . Acesso em 10/07/2014.

E VÓS, QUE DIZEIS QUEM SOU?

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ELIANE PINHEIRO

   De homem pobre, de periferia, conhecido como “amigo de pecadores”, a religião fez de Jesus um branco de olhos azuis e traços delicados, europeizado, de atitude neutra, de postura divina impossível de ser imitada por humanos comuns.

Transformaram as  “boas novas” ou a “boa notícia” de Jesus em religião, e passaram a interpretar o “ide por todo mundo levando a boa notícia”  como ordem divina para convencer as pessoas a trocarem uma religião por outra, um rito por outro, um medo, uma culpa, por um outro medo, uma outra culpa. O evangelho só pode nos afetar verdadeiramente quando atentarmos ao fato de que Cristo foi um homem que fez escolhas concretas, de postura não neutra, de posição clara na escolha pelos oprimidos e contra a hipocrisia religiosa. E num mundo que não é neutro, pode se dizer que alguém seja omisso, jamais neutro.  O omisso geralmente aparenta sobriedade, certo ar de idoneidade e equilíbrio. Não manifesta claramente suas convicções para obter o máximo de vantagem de todos os lados e não ser responsabilizado por nenhum posicionamento. Sua malandragem é nunca comprometer-se. Se Jesus fosse “neutro”, não perderia a linha com os religiosos e fariseus. Se Jesus fosse “neutro” não “armaria um grande barraco”, tomado de raiva, contra os mercadores do templo. Se fosse “neutro”, lavaria as mãos e permitiria que uma mulher fosse apedrejada sob a acusação de ser uma puta, uma vadia, uma adúltera. Se fosse “neutro”, o reino de Deus acolheria pobres e ricos na mesma proporção, diria “tanto faz a condição econômica, o importante é ter fé”.

Ao olhar para o Cristo humano, o desafio que está posto é que é possível ter outra postura num mundo de determinismo e fatalismo histórico. De nada me serve um Cristo que não me inspire, cuja paixão não me faça sentir profundamente provocada, que não me mova a mudar o mundo em busca do reino de Deus, o reino de justiça e liberdade que segundo os evangelhos, “já está no meio de nós” (Lucas 10:11 e Lucas 17:21) e não num porvir de uma eternidade distante e impassível. Reino cujos pobres já têm acesso garantido: “Bem aventurados vós, pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lucas 6:20) e que dificilmente os ricos dele fariam parte (Marcos 10:23, 24 e  Lucas 18:24). Reino que é tomado à força porque, como constatou Karl Marx, ninguém que está no poder abrirá mão de seu poder voluntariamente. Não se escandalize por eu ter citado o principal mentor do comunismo. Escandalize-se por machistas, racistas, homofóbicos, xenofóbicos, meritrocatas e individualistas levarem o nome de Cristo nos lábios e o negarem nas ações.

Tiago, seguidor de Jesus Cristo, não foi neutro:

Ouçam agora vocês, ricos! Chorem e lamentem-se, tendo em vista a miséria que lhes sobrevirá.

A riqueza de vocês apodreceu, e as traças corroeram as suas roupas.

O ouro e a prata de vocês enferrujaram, e a ferrugem deles testemunhará contra vocês e como fogo lhes devorará a carne. Vocês acumularam bens nestes últimos dias.

Vejam, o salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos, e que por vocês foi retido com fraude, está clamando contra vocês. O lamento dos ceifeiros chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Vocês viveram luxuosamente na terra, desfrutando prazeres, e fartaram-se de comida em dia de abate.

Vocês têm condenado e matado o justo, sem que ele ofereça resistência (Tiago 5:1-6).

Não me importo que me chamem de esquerdista, feminista, herege, desviada…

Não me envergonho do evangelho, nem do que ele fez comigo: obrigou-me à tomada de posição. Não sou neutra.

E se você é contra a justiça, se você encontra na opressão dos ricos sobre os pobres uma explicação que a justifique, se você considera que o profeta Amós, o agricultor, exagerou quando denunciou a exploração do homem do campo e vociferou contra os endinheirados em meio à miséria do povo, então você também escolheu que lado ficar. Se você se diz cristão, faz piedosas orações e ignora que o Messias veio para “levar boas notícias aos pobres, para cuidar dos que estão com o coração quebrantado e anunciar liberdade aos oprimidos”(Isaías 61:1) e, ao invés disso, vive dizendo que os miseráveis são culpados por sua própria miséria, então você não é neutro. E nem cristão.

Imagem disponível em:  http://www.istoe.com.br/reportagens/34591_A+FACE+HUMANA+DE+JESUS+PARTE+4  . Acesso em 06/01/2014

EM NOME DA MORAL E DOS BONS COSTUMES

ELIANE PINHEIRO

   Não importa quão estelionatário, quão imoral, quão absurda seja a postura dos políticos evangélicos, sempre terão quem os defenda. Não importa se o cara paga salários para pastores amiguinhos que nunca foram trabalhar, se ele pousar de zeloso pela família. Para crente alienado, basta qualquer safado ser de sua religião, chorar e dizer que zela pela moral (que não tem) que já é defendido como se fosse o que não é. O discurso da “Defesa da família” nega as famílias que temos: gente divorciada que se casa de novo, gente que resolve seguir só com os filhos, gente que não quer ter filhos, família com mãe solteira, família com duas mães, dois pais.  Chamam de “família destruída” um casal que admite que seu casamento seja uma farsa e chamam de família “estruturada” quem viva de aparências. De seus adultérios e hipocrisias não falam. Defendem a exclusão, o machismo, têm pavor da igualdade de direitos; cometem homofobia dizendo que amam, que não são homofóbicos.

   A piedade dos grandes líderes religiosos  equivale a ”levantar um grande clamor” com gemidos de sofrimento contra “a corrupção desse país” e negociar com os políticos um cachê gospel com dinheiro público. O povo se impressiona com quem se joga no chão do palco cheio de “quebrantamento” mas não se impressiona com sua riqueza. O povo, suscetível a pregações barulhentas e demonstrações de pentecostes, desconhece que em geral as igrejas sustentam sua ideologia política na oferta que lhe faz qualquer político: cinco milhões? Uma marcha pra Jesus? Algum cargo político? Ávidos por dinheiro e poder, vendem a si mesmos; com aparência de piedade, enganam seu povo por muito mais que trinta moedas de prata. Judas, o arquétipo cristão da traição, arrependeu-se. Os políticos crentes e os donos corrompidos de certas igrejas evangélicas jamais se arrependem: justificam-se, inventam perseguições, dizem-se injustiçados, abençoam o dinheiro amaldiçoado.

   A moral que defendem é a de institucionalizar seu moralismo farisaico.

   A liberdade que defendem é a de cercear a liberdade dos outros.

   Os bons costumes que praticam é espalhar mentiras e calúnias contra quem ameaça seus privilégios e os desmascaram.

   Em tempos de efervescência na Comissão de Direitos Humanos, li escandalizada Ana Paula Valadão se pronunciar a respeito de Marcos Feliciano por ser “corpo de Cristo” e conclamar o povo a apoiá-lo, por fazer parte de seu clube religioso.  Sob esta ótica, um ateu ético não é “corpo de Cristo”, ao passo que qualquer patife corrupto com cartão de membro é irmão.

   Facilmente consideram herege o cristão que não defenda seu falso evangelho. Não se comovem com nenhuma afirmação social, reino de Deus na Terra nada tem que ver com justiça e ouvir clamor dos pobres, mas com o crescimento de suas denominações, com a expansão do rebanho que os manterá cada vez mais ricos em nome de Deus. Interessam-lhes manter as coisas exatamente como estão para que sua falsa generosidade se perpetue, para que sejam aplaudidos nas praças; dão com a mão direita e tornam públicas suas esmolas. Nas palavras de Paulo Freire, “os opressores, falsamente generosos, têm necessidade, para que sua generosidade continue tendo oportunidade de realizar-se, na permanência da injustiça”. E nada mais indignante que um opressor vestido em pele de ovelha.  Ou de pastor , no caso.

A fé em Jesus não é religião II

As pessoas tentam acrescentar uma porção de penduricalhos culturais e regionais à fé cristã, mas o fato é que, em sua essência, ela está concentrada numa pessoa, Jesus, e não numa religião, cultura ou costume.

Boa parte do que você vê por aí, como clero, templos, imagens, vestes e utensílios especiais não passa de uma grande bobagem que nada tem a ver com Jesus. São coisas que a cristandade emprestou do judaísmo e de religiões pagãs, na tentativa de tornar a fé cristã identificável por coisas visíveis.

Oras, quando algo fica visível, já não precisa de fé, não é mesmo? Se você crê em Jesus você crê em uma pessoa, no próprio Deus, que não está sujeito a países, épocas e culturas porque é eterno. A fé cristã se baseia num fato: o Filho de Deus veio ao mundo, morreu por nossos pecados e ressuscitou ao terceiro dia. É a fé num Jesus vivo, no céu.

A única parte visível da fé cristã na terra é o corpo de Cristo, a igreja. Não estou falando de uma construção de pedras ou tijolos, estou falando daquilo que a Bíblia diz ser igreja, o corpo formado por todos os que crêem em Jesus, que nasceram de novo e foram salvos por ele.

Se a sua fé é numa “igreja”, no sentido de organização religiosa, ou em qualquer coisa que não seja a própria pessoa de Jesus, você está perdendo seu tempo. Se for numa religião, idem. Religião é a idéia de se fazer algo para nos religar a Deus. Mas fazer o que, se o que precisava ser feito Jesus já fez?

Por Mário Persona

 

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