Sobre fé e transcendência

além da religião

Arquivo para a categoria “Uncategorized”

AMOR EMAGRECE

 

ELIANE PINHEIRO

Quando conheço pessoas e vou delas me aproximando, conforme vão gostando de mim, mais me veem menos gorda. E quando passam a me amar, dizem que emagreci. É um amor tão sincero que me amam como se eu fosse magra, de tão legal que sou. Gorda de alma magra. Preto de alma branca. Bicha não afeminada. Nem é tão negra, nem é tão gorda, nem parece sapatão, nem me lembrava que você era umbandista. De tão, tão legal que a gente é.

SOBRE DESEJO

ELIANE PINHEIRO

 

Por que tinha que ser virgem, a santa? Por que as santas devem ser virgens? Castas de toque de outro, do toque secreto de si, dos pensamentos? Porque quanto menos prazer, quanto menos amores, quanto menos gozo, mais a vida se enche de tanto faz, mais prontamente se diz Sim, eis-me aqui.
Só se domina desejo que não existe.
Porque desejo mesmo
que arde
todas sabem: são indomáveis.

 

 

 

 

“Sou homem”, absolve-se o santo homem de deus, arrependido.
Adulterou, fornicou, assediou, abusou, estuprou. Não importa.
A graça do Senhor é infinita. “Pecador sou, careço de perdão”. Levanta-se com o passado apagado, seu gozo é abençoado pela misericórdia abundante de deus. Não o dos gays. Não o das travestis, não o das lésbicas e bissexuais, não o da puta que o fez pecar. Abominação é.
Apela à sua miserável condição humana, sob incontáveis arrependimentos sinceros: o Senhor já nem se lembra mais. Recorre à humanidade para si. Jamais para humanizar. As outras, os outros, que queimem no inferno: em morte e aqui.

Estamos em suas mãos

ELIANE PINHEIRO

 

Nem as questões relacionadas ao mundo do trabalho, nem a exclusividade das tarefas domésticas, nem nosso gozo e sexo, nem o controle de nosso corpo. A luta feminista mais difícil é desentranhar o patriarcado dos nossos afetos, da nossa forma de amar: nisso, nem Frida, nem Simone de Beauvoir são exemplos. Ainda somos tentadas a escamotear relações abusivas com virtuosos “Mas ele”. Gritar contra a opressão material, concreta, nos empodera, nos fortalece, nos agiganta. O que nos apequena e fragiliza ainda está dentro nós, bem lá no fundo de nós, modelada pelo patriarcado: nossos afetos tortos, nossa forma de amar. Eis o grande poder que ainda damos aos homens: sofrer por eles. “Relevem pequenos abusos, machismos mínimos, sutis misoginias, delicados desprezos, poucas subestimações. É isto ou a solidão”, ameaça a menina interior que fomos criadas pra ser. Quanto o quesito é afeto, a libertação é um doloroso parto.
(E mesmo as lésbicas perigam repetir esse padrão do papel macho – fêmea, pai – mãe, provedor – dependente).

Sobre amor

Eliane Pinheiro

Não é possível amar puramente a quem se conhece. Conhecer é ter intimidade para ver o odiável. E a partir de então, amor e (quase) ódio são faces de uma mesma moeda.
Moeda.
Moeda. Valor de troca. Na amizade ou no namoro: Supre-me as necessidades e supro-te.
Necessidade de riso frouxo, de maledicência, de abraço, de olhar pras coisas junto. Necessidade de importância.
Somos, seguramente, muito importantes para quem nos ama mesmo nos conhecendo.
E temos sede desse suicídio da persona. Queremos esse canto de nudez no mundo. Desconfio que a busca das pessoas não seja conquistar. Mas ter consigo a quem possa desconquistar em paz, de meia furada ou bebendo água no gargalo, sendo o que seria sozinho.
Sim! É isto! É sobre pessoas que podemos arrastar pra dentro de nossa solidão, sem arrumar o quarto.
Que pessoa quereria ser a deusa de alguém, se o decanso da alma é poder ser só demasiadamente humana?

ANTIDEPRESSÃO

ELIANE PINHEIRO

Se a tristeza é tanta

Que o corpo só quer deitar

Não é doença

É a alma dizendo

Que não há mais nada a fazer

Que só resta parar

Pacientemente

Passivamente

Esperar

A tristeza esgotar

Passar

Se a apatia é tanta

Que o corpo só quer dormir

Não é doença

É que dormir é quase morrer

E morrer é não doer

Deixa a alma

Nesses pequenos comas

Por alguns instantes

Descansar de ser

Antidepressivo

É ir com a depressão

Até o fim

Até o fundo

Do poço

de si mesmo

É querer morrer

Enterrar esse projeto fracassado de eu

Pra deixar nascer outra coisa

Quando o coração  cansar de ser triste

Quando o desejo de novidade

Fizer se enojar dos velhos assuntos

E o sofrimento for tédio

Inadequado

O corpo e a alma se levantam, enfim

Não mais

dicotomizados.

Navegação de Posts