Sobre fé e transcendência

além da religião

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O QUE ME RESTA

ELIANE PINHEIRO

Li hoje uma entrevista em que o pastor Rob Bell diz abertamente que é a favor do casamento entre homossexuais. Sim, estou sempre atrasadinha, a entrevista bombou em 2012, na revista Veja, e só agora eu soube, por acaso, navegando na internet. Ainda assim fiquei contente, porque é mais um cristão que se posiciona claramente contra a opressão. Não pude evitar de me imaginar lendo uma declaração como essa dez anos atrás. Certamente chamaria Rob Bell de herege ou apóstata.

Os inquietos vivem em piracema. É natural do peixe nadar rio acima, contra o caminho óbvio do rio, para que sua vida ganhe vida, para que seja fecunda. Assim também acontece com os inquietos, não dá pra negarem a própria natureza, não conseguem viver no conforto do não querer saber porque que as coisas são como são.

Cresci numa igreja pentecostal. Não era de todo ruim. Mas o fato de não ser de todo boa me inquietava. Por que Deus me mandaria para o inferno se eu colocasse uma calça, cortasse meu cabelo ou fosse à praia? Por que Deus jamais se irava com o pecado dos rapazes, por que Deus era tão machista? Fui procurar respostas, nunca consegui calar minhas perguntas. Saí daquela igreja, ainda meninona. Escandalizei meia dúzia que jamais entendeu porque eu rompia com minha igreja “de berço”, onde “fui ensinada sobre as coisas de Deus”. Era uma escolha a fazer: suportar os olhares de acusação de “meus irmãos e irmãs na fé” ou suportar meus barulhos interiores.

Conheci uma igreja neopentecostal: fiquei encantada! Lá Deus achava lindo quem dançava, quem fazia tatuagem, quem surfava e quem falava gírias. Foi onde encontrei o homem que hoje é meu companheiro. Foi lá que ouvi falar, pela primeira vez, em “cura emocional”. Usei e abusei da cura que Deus teria pra me dar. E foi lindo. Feio mesmo era ouvir, culto após culto, que o todo poderoso só conhecia a linguagem do toma-lá-da-cá, da barganha, da oferta em dinheiro, em vales, cartões, cheques, jóias ou dívidas assumidas em carnês de suaves prestações. No silêncio do meu quarto, entretanto, Paulo Freire me enchia o espírito de esperança, alegria, de desejo por um mundo mais bonito. Novo tempo de escolher entre ficar ou sair. Jesus nunca amarrou ninguém a si, depois do milagre, dizia: “vai em paz, a TUA fé te curou, a TUA fé te salvou”. Era  a MINHA fé, era a MINHA vida, eu poderia, mais uma vez, sair em paz.

Não consigo não querer entender, não consigo me impor limite: “vá apenas até aqui porque Deus não pode ser questionado”. A fé que teme ser questionada é porque é frágil. E o ateísmo pra mim, não é uma aberração, pelo contrário.  Talvez porque tive a sorte de conhecer ateus éticos e cristãos fascistas, tornado a relativização fácil. Corri e talvez ainda corra o “risco” de ser ateia, desde que essa seja a minha verdade ( Minha neurose primeira é querer viver minhas verdades, ainda que sejam  verdades feias).

Todas as minhas experiências na religião eram de verdade, porque meu coração era sincero. Em sinceridade derramei lágrimas abundantes durantes os cultos. Agora sei que o que me fazia chorar era a ideia religiosa de que eu era uma grande pecadora, uma criminosa que deveria pagar pelos pecados cometidos e que, na contramão de minha lista infinda de acusações, Deus , ao invés de me fulminar, me perdoava. Eu era grata por ser absolvida de  crimes que não cometera. Eu realmente me sentia em dívida por ser humana e por Deus aceitar eu não ser divina; era assim que a religião dizia que ele exigia que fôssemos; era isso que eu preguei inúmeras vezes para as pessoas. Em outras ocasiões, chorava por me emocionar com uma experiência genuína, não nego que as tenha vivido e que foram especiais.

Minhas inquietações não me permitem negar minha verdade de agora para sustentar minhas velhas verdades. “O mundo não é, está sendo”, escreveu Paulo Freire. Então a gente também não é, está sendo.

Nunca tive medo de perder a fé, tinha medo de estar errada ao negar a possibilidade, ainda que distante, de que Deus fosse apenas uma viva imaginação, apenas um mito morto. Aí descobri o caminho místico de encontrar respostas no Deus que habita dentro de mim. Desde minha primeira incerteza, desde que perguntei a Deus sobre coisas e  fui sendo respondida… Peguei gosto! Deus em que creio por causa de Jesus Cristo e dos evangelhos me mostrou que ele é absolutamente maior que os dogmas, que as religiões e que a bíblia. A bíblia poderia talvez me dar algumas pistas sobre Deus, mas ele não poderia caber num livro, tampouco ser refém dele. Se Abba pudesse ser refém de algo, seria do amor. Todas as leis se cumprem numa só palavra: amar. E a radicalidade do evangelho é quase um desaforo: amar não é encontrar-se em estado de paixão permanente, mas é ação de estender a mão, de não julgar e de, mesmo não “sentindo”, agir para o bem. Do pouco que aprendi do Deus revelado por Jesus é que não se faz justiça por bondade, mas porque é o certo, porque justiça não é favor, não é caridade, é amor não idealizado, não é amor nos moldes românticos. Pode ser um pequeno gesto, ou uma grande revolução, mas sempre é ação. Ainda me bato na tentativa de aprender a amar assim.

A sincronicidade fez o resto: acabei conhecendo os textos de Rubem Alves, Ricardo Gondim, Henri Nowen, Paulo Brabo, Frei Betto, Leonardo Boff, Philip Yansei , Brennan Menning (esses dois apresentados por minha prima)…, quando passei a ouvir Caio Fábio e Rob  Bell, senti-me espiritualmente ligada à compreensão de transcendência que eles apresentavam, senti-me agasalhada na descoberta de que minhas descobertas recentes eram velhas descobertas de muita gente. Bem mais tarde fui descobrindo (no dia de hoje de novo, inclusive), que o Deus que tenho experimentado é universal, o que realmente me conforta. Sinto-me mais esperançosa ao ver mais e mais cristãos e cristãs nadando contra a corrente do tradicionalismo religioso, do moralismo.

O evangelho diluiu medos e culpas. Ao perder o medo de Deus, perdi o medo de mim. Conto tudo pra Ele desde sempre: coisa comuns, coisas vergonhosas, coisas profanas e coisas santas. E não tenho um pingo de vergonha dele, nem de mim. Só me arrependo quando me arrependo, porque Abba não me chantageia. Essa fidelidade dele, essa presença que assumo ser insana, faz-me ser atraída ao Cristo porque me ressignifica como Eliane. Somente quando atendi ao conselho de Jesus de que “o reino de Deus está dentro de nós”, somente depois que acreditei que o evangelho é simples, é que me tornei autônoma,  jamais auto-suficiente.

Minhas certezas são incertas, esse clichê é perfeito. Penso que a espiritualidade só me mostra os que meus olhos podem enxergar. Há dez anos a ideia de inferno, de pecado, de religião e de bíblia pra mim, era a que me era possível conceber. Há cinco anos as ideias mudaram ainda mais… Conversar com pessoas, ouvir outras experiências, inevitavelmente me provoca a seguir revisando meus achismos… Parece que, quanto mais reconheço minha limitação humana, mais admito carecer de um Deus que ama. Ou é isto, ou é nada. Como disse Ricardo Gondim, numa pregação que ouvi no rádio, já nem me lembro exatamente quando: “um Deus que não seja melhor [mais bondoso, mais amoroso, mais coerente] do que um ser humano bom, é um deus medíocre”. O Abba que experimento não é medíocre. Nele cabem gays, lésbicas, héteros, castos,  hindús, ateus, muçulmanos, umbandistas, putas, crentes e eu, inclusive. Ou é isto, ou tô fudida.

Eu e o Rob Bell.

Entrevista disponível em :

http://www.esextante.com.br/site/newsletter/2012/2012_11_26Amor/AmorVence_Veja.pdf

Acesso em 11/08/2014

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VAMOS FALAR SOBRE ISSO

ELIANE PINHEIRO

 

Soube da existência do livro “Feridos em nome de Deus”  logo que foi lançado. Prometi a mim mesma que o compraria, que leria. Ficou entre outros tantos de uma lista infinda de obras que necessito ler. E só agora leio pela primeira vez a entrevista da autora, Marília de Camargo César . Senti-me acolhida e justificada, por isso a reproduzo aqui (abaixo, o link da publicação original).

Deve acontecer com vocês também, acontece sempre: às vezes fazemos alguma reflexão ou propomos uma nova leitura sobre coisas que estão tranquilamente acomodadas ao senso comum, seja na política, na religião ou em outra área em que trabalhemos.  As pessoas com quem convivemos nos tratoram ou desqualificam porque não aceitam que pessoas comuns, de vidas comuns, ousem questionar ou reverter a ordem das coisas. Eis que quando alguém com a autoridade de um título, ou de uma condição de destaque, fala exatamente o que você diz, e as mesmas pessoas que te condenavam com veemência, aplaudem ou consentem com a fala de quem tenha certo prestígio.  Gostei muito dessa entrevista e quero ler o livro de Marília de Camargo o quanto antes! Concordo com a autora quando afirma que a negação das dores, a espiritualização das emoções podem causar transtornos mentais. E concordo que o abuso financeiro e emocional praticado pelos evangélicos (salvo exceções) deva ser denunciado. Bom seria que os evangélicos sérios, ao invés de pedirem que se faça silêncio “para que não haja escândalos”, demonstrassem que também se constrangem, que sentem indignação, que não concordam com toda essa vergonha que é feita em nome de Deus.

Mather Luther King, negro, ferido pelo racismo, lutou contra isso. As mulheres feministas, um dia humilhadas pelo machismo, se levantam contra essa opressão.  Muitas pessoas que perderam um ente por câncer, se engajam na luta contra essa doença através de voluntariado ou organizações de outros tipos. Citei apenas alguns exemplos. Mas o que quero dizer é que seria uma postura ética se nós, os que acompanhamos de perto o mal que a igreja evangélica não séria causou à pessoas que conhecemos, ou se nós, os que foram feridos “em nome de Deus”, também tivéssemos a mesma coragem de desmascarar igrejas abusadoras e suas práticas. Ou ainda, como no meu caso, se nós que já estivemos num púlpito ou ensinando nas escolas bíblicas, nos arrependêssemos e buscássemos (se é que é possível), reparar os erros que praticamos de forma sutil: por ter pregado com naturalidade a opressão às mulheres e à comunidade LGBT, por ter incentivado as pessoas a darem dinheiro do pouco que têm. Carregar o peso do silêncio conivente e da culpa é insuportável, pelo menos pra mim, é.

ENTREVISTA – MARÍLIA DE CAMARGO CÉSAR

 

Anna Carocina Negri QUEM É
Marília de Camargo César, 44 anos, jornalista, casada, duas filhasO QUE FEZ
Editora assistente do jornal O Valor, formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper LíberoO QUE PUBLICOU
Seu livro de estreia é Feridos em nome de Deus (editora Mundo Cristão)

 

ÉPOCA – Por que você resolveu abordar esse tema?
Marília de Camargo César – 
Eu parti de uma experiência pessoal, de uma igreja que frequentei durante dez anos. Eu não fui ferida por nenhum pastor, e esse livro não é nenhuma tentativa de um ato heroico, de denúncia. É um alerta, porque eu vi o estado em que ficaram meus amigos que conviviam com certa liderança. Isso me incomodou muito e eu queria entender o que tinha dado errado. Não quero que haja generalizações, porque há bons pastores e boas igrejas. Mas as pessoas que se envolvem em experiências de abusos religiosos ficam marcadas profundamente.

 

ÉPOCA – Qual foi a história que mais a impressionou?
Marília – 
Uma das histórias que mais me tocaram foi a de uma jovem que tem uma doença degenerativa grave. Em uma igreja, ela ouviu que estava curada e que, caso se sentisse doente, era porque não tinha fé suficiente em Deus. Essa moça largou os remédios que eram importantíssimos no tratamento para retardar os efeitos da miastenia grave (doença autoimune que acarreta fraqueza muscular). O médico dela ficou muito bravo, mas ela peitou o médico e chegou a perder os movimentos das pernas. Ela só melhorou depois de fazer terapia. Entendeu que não precisava se livrar da doença para ser uma boa pessoa.

 

ÉPOCA – Que tipo de experiência você considera como abuso religioso e que marcas são essas?
Marília – 
Meu livro é sobre abusos emocionais que acontecem na esteira do crescimento acelerado da população de evangélicos no Brasil. É a intromissão radical do pastor na vida das pessoas. Um exemplo: uma missionária que apanha do marido sistematicamente e vai parar no hospital. Quando ela procura um pastor para se aconselhar, ele fala assim para ela: “Minha filha, você deve estar fazendo alguma coisa errada, é por isso que o teu marido está se sentindo diminuído e por isso ele está te batendo. Você tem de se submeter a ele, porque biblicamente a mulher tem de se submeter ao cabeça da casa. Então, essa mulher, que está com a autoestima lá embaixo, que apanha do marido – inclusive pelo Código Civil Brasileiro ele teria de ser punido – pede um conselho pastoral e o pastor acaba pisando mais nela ainda. E ele usa a Bíblia para isso. Esse é um tipo de abuso que não está apenas na igreja pentecostal ou neopentecostal, como dizem. É um caso da Igreja Batista, em que, teoricamente, os protestantes históricos têm uma reputação melhor.

 

ÉPOCA – Seu livro questiona a autoridade pastoral. Por quê?
Marília – 
As igrejas que estão surgindo, as neopentecostais, e não as históricas, como a presbiteriana, a batista, a metodista, que pregam a teologia da prosperidade, estão retomando a figura do “ungido de Deus”. É a figura do profeta, do sacerdote, que existia no Antigo Testamento. No Novo Testamento, não existe mais isto. Jesus Cristo é o único mediador. Então o pastor dessas igrejas mais novas está se tornando o mediador. Para todos os detalhes da sua vida, você precisa dele. Se você recebeu uma oferta de emprego, o pastor pode dizer se deve ou não aceitá-la. Se estiver paquerando alguém, vai dizer se deve ou não namorar aquela pessoa. O pastor, em vez de ensinar a desenvolver a espiritualidade, determina se aquele homem ou aquela mulher é a pessoa da sua vida. E o pastor está gostando de mandar na vida dos outros, uma atitude que abre um terreno amplo para o abuso.

 

ÉPOCA – Você também fala que não é só culpa do pastor.
Marília – 
Assim como existe a onipotência pastoral, existe a infantilidade emocional do rebanho, que é o que o Sérgio Franco, um dos pastores psicanalistas entrevistados no livro, fala. A grande crítica do Freud em relação à religião era essa. Ele dizia que a religião infantiliza as pessoas, porque você está sempre transferindo as suas decisões de adulto – que são difíceis – e a figura do sagrado, no caso aqui o líder religioso, para a figura do pai ou da mãe – o pastor, a pastora. É a tendência do ser humano em transferir responsabilidade. O pastor virou um oráculo. É mais fácil ter alguém, um bode expiatório, para pôr a culpa nas decisões erradas tomadas.

 

“O pastor está gostando de mandar na vida dos outros
e receber presentes. Isso abre espaço para os abusos”

 

ÉPOCA – Quais são os grandes males espirituais que você testemunhou?
Marília – 
Eu vi casamentos se desfazer, porque se mantinham em bases ilusórias. Vi também pessoas dizendo que fazer terapia é coisa do Diabo. Há pastores contra a terapia que afirmam que ela fortalece a alma e a alma tem de ser fraca; o espírito é que tem que ser forte. E dizem isso supostamente apoiados em textos bíblicos. Dizem que as emoções têm de ser abafadas e apenas o espírito ser fortalecido. E o que acontece com uma teologia dessas? Psicoses potenciais na vida das pessoas que ficam abafando as emoções. As pessoas que aprenderam essa teologia e não tiveram senso crítico para combatê-la ficaram muito mal. Conheci um rapaz com muitos problemas de depressão e de autoestima que encontrou na igreja um ambiente acolhedor. Ele dizia ter ressuscitado emocionalmente. Só que com o passar dos anos, o pastor se apoderou dele. Mas ele começou a perceber que esse pastor é gente, que gosta de ganhar presentes e que usa a Bíblia para se justificar. Uma das histórias que mais me tocou foi a de uma jovem que tem uma doença degenerativa grave. Ela foi para uma dessas igrejas e ouviu que se estivesse sentindo ainda doente era porque não tinha fé suficiente em Deus. Essa moça largou os remédios que eram importantíssimos no tratamento para retardar os efeitos da miastenia grave (doença auto-imune que acarreta fraqueza muscular). O médico dela ficou muito bravo e não a autorizou. Mesmo assim, ela peitou o médico e chegou a perder os movimentos das pernas. Ela só melhorou depois de fazer terapia. Ela entendeu que não precisava se livrar da doença para ser uma boa pessoa.

 

ÉPOCA – Por que demora tanto tempo para a pessoa perceber que está sendo vítima?
Marília – 
Os abusos não acontecem da noite para o dia. A pessoa que está sendo discipulada, que aprende com o pastor o que a Bíblia diz, desenvolve esse relacionamento aos poucos. No primeiro momento, ela idealiza a figura do líder, como alguém maduro, bem preparado. É aquilo que fazemos quando estamos apaixonados: não vemos os defeitos. O fiel vê esse líder como um intermediário, como um representante de Deus que tem recados para a vida dele, um guru. E o pastor vai ganhando a confiança dele num crescendo, como numa amizade. Esse líder, que acredita que Deus o usa para mandar recados para sua congregação, passa a ser uma referência na vida do fiel. O fiel, pro sua vez, sente uma grande gratidão por aquele que o ajudou a mudar sua vida para melhor. Ele se sente devedor do pastor e começa, então, a dar presentes. O fiel quer abençoar o líder porque largou as drogas, ou parou de beber, ou parou de bater na mulher, ou porque arrumou um emprego e está andando na linha. E começa a dar presentes de acordo com suas posses. Se for um grande empresário, ele dá um carro importado para o pastor. Isso eu vi acontecer várias vezes. O pastor, por sua vez, gosta de receber esses presentes. É quando a relação se contamina, se torna promíscua. E o pastor usa a Bíblia para dizer que esse ato é bíblico. O poder está no uso da Bíblia para legitimar essas práticas.

 

ÉPOCA – Qual é o limite da autoridade pastoral?
Marília – 
O pastor tem o direito de mostrar na Bíblia o que ela diz sobre certo tema. Como um bom amigo, ele tem o direito de dar um conselho. Mas ele tem de deixar claro que aquilo é apenas um conselho. Pode até falar que o resultado disso ou daquilo pode ser ruim para a vida do fiel. Mas ele não pode mandar a pessoa fazer algo em nome de Deus. O que mais fere as pessoas é ouvir uma ordem em nome de Deus. Se é Deus, então prova! Se Deus fala para o pastor, por que Ele não fala para o fiel? Eles estão sendo extremamente autoritários.

 

ÉPOCA – Você afirma que muitos dos pastores não agem por má-fé, mas por uma visão messiânica. Explique.
Marília – 
É uma visão messiânica para com seu rebanho. Lutero (teólogo alemão responsável pela reforma protestante no século XVI) deve estar dando voltas na tumba. Porque o pastor evangélico virou um papa que é a figura mais criticada no catolicismo, o inerrante. E não existe essa figura, porque somos todos errantes, seres faltantes, como já dizia Freud. Pastor é gente. E é esse pastor messiânico que está crescendo no evangelismo. Existe uma ruptura entre o Antigo e o Novo Testamento, que é a cruz. A reforma de Lutero veio para acabar com a figura intermediária e a partir dela veio a doutrina do sacerdócio universal. Todos têm acesso a Deus. Uma das fontes do livro disse que precisamos de uma nova reforma e eu concordo com ela. Essa hierarquização da experiência religiosa, que o protestante tanto combateu no catolicismo, está se propagando. Você não pode mais ter a conversa direta com o divino. Porque tem aquela coisa da “oração forte” do pastor. Você acha que ele ora mais que você, que ele tem alguma vantagem espiritual e, se você gruda nele, pega uma lasquinha. Isso não existe. Somos todos iguais perante Deus.

 

ÉPOCA – Se a igreja for questionada em seus dogmas, ela não deixará de ser igreja?
Marília – 
Eu não acho isso. A igreja tem mesmo de ser questionada, inclusive há pensadores cristãos contemporâneos que questionam o modelo de igreja que estamos vivendo e as teologias distorcidas, como a teologia da prosperidade, que são predominantemente neopentecostais e ensinam essa grande barganha. Se você não der o dízimo, Deus vai mandar o gafanhoto. Simbolicamente falando, Ele vai te amaldiçoar. Hoje o fiel se relaciona com o Divino para as coisas darem certo. Ele não se relaciona pelo amor. Essa é uma das grandes distorções.

(…)

ÉPOCA – No livro você dá alguns alertas para não cair no abuso religioso. Fale deles.
Marília – Desconfie de quem leva a glória para si. Um conselho é prestar atenção nas visões megalomaníacas. Uma das características de quem abusa é querer que a igreja se encaixe em suas visões, como querer ganhar o Brasil para Cristo e colocar metas para isso. E aquele que não se encaixar é um rebelde, um feiticeiro. Tome cuidado com esse homem. Outra estratégia é perguntar a si mesmo se tem medo do pastor ou se pode discordar dele. A pessoa que tem potencial para abusar não aceita que discorde dela, porque é autoritária. Outra situação é observar se o pastor gosta de dinheiro e ver os sinais de enriquecimento ilícito. São esses geralmente os que adoram ser abençoados e ganhar presentes. Cuidado com esse cara.
Disponível completo em: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI80245-15228,00.html . Acesso em 10/07/2014.

MORTE E ABSOLVIÇÃO

ELIANE PINHEIRO

Perdoar

a quem perdeu

o poder

de ferir

NON CARPE DIEM

 

Estamos na “era do gozo”. Vivemos numa sociedade que prega a satisfação eterna, a superficialidade, o “carpe diem”. O sofrimento deve ser negado e substituído por todo tipo de fuga: comida, sexo, consumismo, álcool, drogas… Não sabemos lidar com frustrações e temos pavor dos dias tristes. Quem termina um namoro, quem passa por um divórcio, quem enterra um querido – ninguém mais pode ficar desolado, arrasado, triste, prostrado – antidepressivos são receitados aos montes, somos a geração do gozo permanente. Grandes e pequenas perdas são colocadas no mesmo pacote. Perdemos o direito de ter pena da gente, de ter dó da gente, de lamentar nossos abandonos e grandes decepções. A ordem é  “dar a volta por cima”, sob a torcida ansiosa de nossos amigos, que acham que nos ajudam nos impedindo de chorar até estancar a dor.

Nesse incômodo de não sabermos lidar com nossas angústias e tédios, fugimos de nós mesmos. Nunca estamos em silêncio: ouvimos música no trajeto ao trabalho, em casa assistimos televisão, passamos horas a fio navegando na internet. E quando olhamos para dentro de nós? Raramente. Enquanto nossa sociedade nos empurra à superficialidade, o Pai aguarda ansiosamente que nos aquietemos!  Criar o hábito de meditar é o caminho para ouvir a si mesmo, perder-se, ouvir a Deus, organizar as bagunças interiores… Ouvir a Deus requer silêncio e o silêncio mais difícil de se obter não é o cessar dos ruídos externos por completo: é silenciar a alma.  Nossas almas estão moldadas segundo nossa sociedade barulhenta, cheia de ativismos e ansiedades. O salmista Davi ordenava à sua alma que se aquietasse (Sl 42:5). Stormie Omartian diz que quando oramos, o Senhor nos mostra o que em nossa personalidade resiste à ordem das coisas.

 Herman Hesse, em muitos livros seus, fala sobre essa voz interior, a quem nomeia de “voz de Deus”. Na obra Damian, diz:  “Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já não busco mas nas estrelas e nos livros:começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim”. Tiago, irmão de Jesus,  escreveu que  ao nos achegarmos a Deus,  ele  também se achega a nós  (Tiago 4:8).

Aquiete-se e ouça a voz que está dentro de você, pois é dentro de você que Deus habita. Pode ser que não lhe surja nenhum conselho, mas você poderá levantar-se com um sentimento sobre tomar uma atitude específica. Nas primeiras vezes, pode ser que você adormeça. Tudo bem! Adormecer no colo do Pai é mesmo maravilhoso! Pode ser que você se sinta triste e angustiado, se isto acontecer, deixe as lágrimas rolarem até a última gota. O exercício da solitude não é fácil para quem ainda não se habituou a fazê-lo: falar ao Pai sobre seus pensamentos e sentimentos, depois se calar; refletir sobre o que essa voz lhe diz, enxergar o que Deus quer que admita e conheça sobre você mesmo. Talvez pareça cansativo ou distante demais, mas este é o caminho da para quem deseja ir além da superfície.

 

 

 

 

SOBRE MORTE E VIDA

Foto de Sebastião Salgado, “In Princípio”.

Como não poderia deixar de ser, prossigo em minhas descobertas acerca do que possa ser o evangelho e o próprio Deus. Paulo, o apóstolo tinha razão: viver em Cristo é morrer. E neste aspecto tenho colecionado desapontamentos. Pensei que servir ao Reino de Deus me fosse custar o emprego e que viveria de forma casta e nobre em favor dos pobres ou dos desesperados, atendendo-os em alguma casa onde pairasse um clima de mistério e uma áurea de transcedencia.  O tal desapontamento veio ao descobrir que trabalho para o Reino frutificando no chão comum: o evangelho exige de mim que coloque amor em tudo que eu faça. Devo ser boa professora porque sou templo de Deus. Não me são feitas exigências que não seja amar. Amar o aluno bom e o aluno rebelde, o que tem uma família e o órfão de pais vivos. Deixá-los ser criança, importar-me com as dores deles, olhar nos olhinhos deles quando tiverem algo a me dizer. E estar a disposição de companheiros de trabalho que sofrem por algum motivo e fazer de minha vida um abrigo. Nisso não há grande misticismo.

O evangelho quer fazer de mim uma mulher simples. Não provoco choros emocionados, nem orações de gratidão por ter sido um instrumento de grandes milagres. Sou chamada ao tédio e ao anonimato. A transcedencia é o meu lugar secreto, jamais será um espetáculo a ser ovacionado.

Nas parábolas de Jesus o Reino é comum como as demandas rurais: cuidar de rebanhos, plantar sementes, observar o grão de mostarda, cuidar de uma vinha. Ao comparar o Reino de Deus a rotina do homem do campo, o mestre está dizendo que na espiritualidade não há nada de megalomaníaco – é decepcionantemente simples.

O poder de ser sucinto de Cristo desmonta com toda minha ânsia de ser importante e deixar um legado. Serei conhecida como sua discípula se amar, se realmente me importar com problemas que não são meus, injustiças que não me diriam respeito, sutilezas que preferiria passar de largo.

A mim me bastam o silencio, a meditação e a companhia de Aba. Quando nos são arrancadas as bijuterias do Ego, restam-nos apenas os braços acolhedores do Pai. Vou a ele não para agradá-lo, não porque seja espiritual e complacente. Mergulho nele para agradar-me, refazer-me, encontrar a paz necessária para minha vida tão comum. Não espero mais que algo extraordinário aconteça. Sentir-me concretamente amada pelo Pai é o meu extraordinário milagre diário.

No amor do Aba percebo que as grandes explicações são dispensáveis, ao passo que patinar no atoleiro de minhas hipóteses racionais me deixa cada vez mais só.

Vou morrendo diariamente para viver uma vida mais profunda e real. Nisso reside meu sentido. No Pai aprendi a desistir de mim.

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