Sobre fé e transcendência

além da religião

Rapidinha (2)

Desde o começo tímido e estreito do acesso dos estudantes das classes trabalhadoras à pós-graduação nos níveis de mestrado e doutorado, ouço repetidamente críticas desencorajadoras aos pesquisadores pobres: que a academia é expressão do pensamento colonizado, que nada produz de relevante, que nem se quer se sabe a razão de ser sua existência, que seria prova de radicalidade revolucinária desdenhar desse reduto burguês. Interessante esse discurso emergir justo agora, em que meia dúzia de trabalhadores querem discutir sua realidade a partir da objetividade e praticar a tão elogiada (e raramente praticada) práxis: teorizarem suas práticas (e torná-las públicas).

Quem se aventuraria a dizer a Carolina Maria de Jesus que a cultura oral deveria ser valorizada por ela e que, enquanto mulher favelada, deveria desistir de perseguir o sonho burguês, letrado, normativo, de ser escritora?

Quem, hoje, admitindo os erros cometidos por Lula, diria-lhe que a presidência da república era só para os bens nascidos filhos das elites e não lugar de um operário tardiamente alfabetizado?

Quem diz, hoje, que as mulheres negras não devem se deixar seduzir pelo mercado dos cosméticos que, nada tendo que ver com a luta antirracista, produz pó e batom para mulheres pretas? Quem diz que a comunidade LGBTT não deva se encantar com o comercial da multinacional que, não se comprometendo em deixar de explorar o trabalho de homens e mulheres, exibe um casal de lésbicas num outdoor  à beira de uma importante estrada?

São os mesmos dois grupos de sempre: Os que gritam por revolução depois de terem seus filhos bem guardados e um passaporte na mão (os incluídos que são sommeliers do desejo de inclusão dos outros); e os que, na condição de excluídos, os ecoam.

SOLIDÃO (Segundo Jung)

Quando criança, sentia-me solitário e o sou ainda hoje[…]. A solidão não significa a ausência de pessoas à nossa volta, mas sim o fato de não podermos comunicar-lhes as coisas que julgamos importantes, ou mostrar-lhes o valor de pensamentos que lhes parecem improváveis. Minha solidão começa com a experiência vivida em sonhos precoces e atinge seu ápice na época em que me confrontei com o inconsciente […]. Mas a solidão não significa, necessariamente, oposição à comunidade; ninguém sente mais profundamente a comunidade do que o solitário, e esta só floresce quando cada um se lembra de sua própria natureza, sem identificar-se com os outros. É importante que tenhamos um segredo e a intuição de algo incognoscível. Esse mistério dá à vida um tom impessoal e “numinoso”. Quem não teve uma experiência desse tipo perdeu algo de importante. O homem deve sentir que vive num mundo misterioso, sob certos aspectos, onde ocorrem coisas inauditas – que permanecem inexplicáveis – e não somente coisas que se desenvolvem nos limites do esperado. O inesperado e o inabitual fazem parte do mundo. Só então a vida é completa. Para mim, o mundo, desde o início, era infinitamente grande e inabarcável.

Conheci todas as dificuldades possíveis para me afirmar, sustentando meus pensamentos. Havia em mim um daimon que, em última instância, era sempre o que decidia. Ele me dominava, me ultrapassava e quando tomava conta de mim, eu desprezava as atitudes convencionais. Jamais podia deter-me no que obtinha. Precisava continuar, na tentativa de atingir minha visão. Como, naturalmente, meus contemporâneos não a viam, só podiam constatar que eu prosseguia sem me deter.

Ofendi muitas pessoas; assim que lhes percebia a incompreensão, elas me desinteressavam. Precisava continuar.[…], precisava seguir uma lei interior que me era imposta, sem liberdade de escolha. Naturalmente, nem sempre obedecia a ela.
Como poderíamos viver sem cometermos incoerências? Em relação a alguns seres, era sempre próximo e presente, na medida em que mantínhamos um diálogo interior; mas podia ocorrer que, bruscamente, eu me afastasse, por sentir que nada mais havia que me ligasse a eles. Tinha que aceitar, penosamente, o fato de que continuassem lá, mesmo quando nada mais tinham a me dizer. Muitos despertaram em mim um sentimento de
humanidade viva, mas só quando esta era visível no círculo mágico da psicologia; no instante seguinte, o projetor poderia afastar deles seus raios e nada mais restaria. Podia interessar-me intensamente por alguns seres, mas, desde que se tornavam
translúcidos para mim, o encanto se quebrava. Fiz, assim, muitos inimigos[…]

“Vergonhosamente, uma força arrebata-nos o coração Pois todos os deuses exigem oferendas, E quando nos esquecemos de algum, Nada de bom acontecerá”, disse Hoelderlin.
A falta de liberdade causava-me grande tristeza. Tinha às vezes á impressão de encontrar-me num campo de batalha:

– Caíste por terra, meu amigo! Mas devo prosseguir, não posso, não posso parar! Pois “vergonhosamente uma força arrebata-nos o coração.” Eu te amo, eu te amo, mas não posso ficar! – No momento isso é dilacerante. Mas eu mesmo sou uma vítima, não posso ficar. Entretanto, o daimon urde as coisas de tal modo que é possível escapar à inconseqüência abençoada e, em oposição à flagrante “infidelidade”, permaneço totalmente fiel.
Poderia talvez dizer: necessito das pessoas mais do que os outros, e, ao mesmo tempo, bem menos.

Quando o daimon está em ação, sentimo-nos muito perto e muito longe. Só quando ele
se cala é que podemos guardar uma medida intermediária.
O demônio interior e o elemento criador se impuseram a mim de forma absoluta e brutal. As ações habituais que eu projetava passavam, geralmente, para o segundo plano, mas nem sempre ou em toda parte. Creio, entretanto, que sou conservador até a medula. Encho o cachimbo, usando o porta-tabaco de meu avô e guardo ainda seu bastão de alpinista ornado de casco de camelo, que ele trouxe de Pontresina, onde foi um dos primeiros
veranistas.
Sinto-me contente de que minha vida tenha sido aquilo que foi: rica e frutífera. Como poderia esperar mais? Ocorreram muitas coisas, impossíveis de serem canceladas. Algumas poderiam ter sido diferentes, se eu mesmo tivesse sido diferente.
Assim, pois, as coisas foram o que tinham de ser; pois foram o que foram porque eu sou como sou. Muitas coisas, muitas circunstâncias foram provocadas intencionalmente, mas nem sempre representaram uma vantagem para mim. Em sua maioria dependeram do destino. Lamento muitas tolices, resultantes de minha teimosia, mas se não fossem elas não teria chegado à minha meta.

Assim, pois, eu me sinto ao mesmo tempo satisfeito e decepcionado. Decepcionado com os homens, e comigo mesmo. Em contacto com os homens vivi ocasiões maravilhosas e trabalhei mais do que eu mesmo esperava de mim. Desisto de chegar a um julgamento definitivo, pois o fenômeno vida e o fenômeno homem são demasiadamente grandes. À medida em que envelhecia, menos me compreendia e me reconhecia, e menos sabia sobre mim mesmo.
Sinto-me espantado, decepcionado e satisfeito comigo. Sinto-me triste, acabrunhado, entusiasta. Sou tudo isso e não posso chegar a uma soma, a um resultado final. É para mim impossível constatar um valor ou um não-valor definitivos; não posso julgar a vida ou a mim mesmo. Não estou certo de nada. Não tenho mesmo, para dizer a verdade, nenhuma convicção definitiva – a respeito do que quer que seja. Sei apenas que nasci e que existo; experimento o sentimento de ser levado pelas coisas. Existo à base de algo que não conheço.

Apesar de toda a incerteza, sinto a solidez do que existe e a continuidade do meu ser, tal como sou.
O mundo no qual penetramos pelo nascimento é brutal, cruel e, ao.mesmo tempo, de uma beleza divina. Achar que a vida tem ou não sentido é uma questão de temperamento. Se o não sentido prevalecesse de maneira absoluta, o aspecto racional da vida desapareceria gradualmente, com a evolução. Não parece ser isto o que ocorre. Como em toda questão metafisica, as duas alternativas são provavelmente verdadeiras: a vida tem e não tem
sentido, ou então possui e não possui significado.

Espero ansiosamente que o sentido prevaleça e ganhe a batalha.
Quando Lao-Tse diz: “Todos os seres são claros, só eu sou turvo”, exprime o que sinto em, minha idade avançada. Lao-Tse é o exemplo do homem de sabedoria superior que viu e fez a experiência do valor e do não-valor, e que no fim da vida deseja voltar a seu próprio ser, no sentido eterno e incognoscível. O arquétipo do homem idoso que contemplou suficientemente a vida é eternamente verdadeiro; em todos os níveis da inteligência, esse tipo aparece e é idêntico, quer se trate de um velho camponês ou de um grande filósofo como Lao-Tse.
Assim, a idade avançada é… uma limitação, um estreitamento. E no entanto acrescentou em mim tantas coisas: as plantas, os animais, as nuvens, o dia e a noite e o eterno no homem. Quanto mais se acentuou a incerteza em relação a mim mesmo, mais aumentou meu sentimento de parentesco com as coisas. Sim, é como se essa estranheza que há tanto tempo me separava do mundo tivesse agora se interiorizado, revelando-me uma dimensão desconhecida e inesperada de mim mesmo.

JUNG, Carl. Memórias, sonhos e reflexões. São Paulo: Nova Fronteira, 1986.

Notícia velha

ELIANE PINHEIRO

Morreu.
Era isso que queria dizer
Que está morto
Só isso: morreu-se.
Faltam palavras mais elaboradas pra explicar essa falta
Morreu, sabe?
E me sinto confusa
Esse vazio
Essa vontade de história mais longa
Essa ilusão de que tinha umas coisas bonitas por vir
De que as grosserias cessariam
De que a gente enfim
Se entenderia
Se encontraria naquelas várias tardes de opiniões desencontradas.
Mas ele morreu
Morreu-se
Assim, na maior cara de pau, sem dar conta de minhas exigências
indiferente às minhas expectativas ( egoístas?).
Morto.
Ele morreu, sabe?
Aí fiquei sem saber direito
O que é ter pai ou o que um pai pode ser
Ou se pais só são
Sem maiores pretensões
Ele morreu, sabe?
É que já tem um tempo, não é mais novidade
Esgotaram-se as chances de recontar e recontar essa perda: lamentos têm prazo de validade
Falta dele mesmo, sei lá
Ou da esperança da espera por alguns SE
E … SE?
Tantos E SE que a morta enterra.

MINI CONTO

ELIANE PINHEIRO

 

O amor pelo qual suspirara toda a vida chegou, finalmente, para si. Com todos os cheiros, sabores, sons e toques sonhados.
A felicidade durou quase nada.
Segundo seguinte teve certeza ainda maior que ter perdido os melhores anos de sua existência sem ter experimentado o que experimentara naquele instante fortaleceu ainda mais sua revolta. Constatou que sempre estivera certa: era realmente perfeito.
E lindo.
E bom.
Tal como imaginara.
Tal como imaginara por toda a vida.
Por toda a vida.
Não era justo, não era.
Ressentiu-se.
Tarde demais. Tarde demais.
Receita e alma, depois que amargam, coisa alguma torna a dar jeito.
Irreparável. Irremediável. Irreconstituível.
Amargura é convicção de tempo perdido, de vida escoada.

HERMAN HESSE

Selecionei algumas citações de alguns romances de Hesse que li no inverno de 2013.

 

“Escutei as vozes daqueles que nada enxergam na nossa maneira de pensar, senão a indiferença esnobe do “intelectual”. Pensam que somos gente para o qual tudo se transforma em papel, para quem morte e vida são apenas palavras. Não somos alienados. Mas não reconhecemos posições boas e más – conhecemos apenas duas espécies de pessoas: aqueles que procuram viver suas convicções, e aqueles que as carregam no bolso do paletó”.

 

Para nós, os devotos e escritores, que também no cotidiano acreditamos em Deus, e já antes conhecíamos a existência da alma, esse tempo não é maior e nem menor do que outro qualquer. Pois nosso lado mais íntimo e profundo não vive nele”.

“E passava-se em mim algo que durou até hoje: tornara-me desconfiado diante de vozes de fora, tanto mais desconfiado quanto mais fossem oficiais. Aliás, comecei a sentir de modo geral que o verdadeiramente interessante e digno de se viver, o que realmente nos consegue encher, ocupar e emocionar, não está fora de nós, mas dentro. Não que eu soubesse disso, mas sentia-o, e comecei a ler filosofia, a mergulhar nos meus escritores preferidos – tudo com a obscura sensação de que este era meu caminho, o caminho para mim mesmo, e que todos os demais não eram necessários, nem eu pertencia a eles. Começou em mim o que Cristo chama de “recolhimento”, o psicanalista, de “introversão”. Não sei dizer se esse caminho, essa maneira de ser e viver, é melhor que os outros. Sei apenas que é me é necessário”.

“Digo coisas óbvias. Mas uma vez que cada soldado morto é uma eterna repetição de um erro, também a verdade terá de ser eternamente repetida, em mil formas diferentes”

“Não acredito na paz através de caminhos racionais, de organização e propaganda, como não acredito na descoberta da pedra da Sabedoria através de congressos de Química”.

“Nem um centésimo das atitudes dos homens corresponde a ponderações racionais. Podemos estar totalmente convencidos da insensatez de um ato, e ainda assim cometê-lo com fervor. Todos os apaixonados agem assim”.

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