Sobre fé e transcendência

além da religião

Se eu falasse a língua dos anjos

ELIANE PINHEIRO

Eu nunca tento arrastar ninguém pra fora de sua religião. Não posso dizer o mesmo dos religiosos com os quais tenho que lidar.
Difícil explicar que a paz tão propagada… eu encontrei fora da religião: longe das obrigações e da negação da vontade. E tendo a fazer uma conta simplista: qto menos negação, menos neurótico. Quanto mais frustração justificada pela exigência dos deuses, mais amargura, mais rigidez e mais maldade.
Tem um versículo do livro bíblico de S. João que questiona a possibilidade de uma pessoa amar mais a um deus que  não vê do que  a um humano a quem vê.
Amor, no sentido bíblico, não tem que ver com admiração, carinho, afeto… mas com empatia. E parte das doutrinas que conheço é justamente a negação dos humanos a quem se vê em nome de um deus a quem não se vê.
O que é inconcebível, pra mim, não é que as pessoas acreditem em reencarnação, mas que justifiquem que um menino venha a morrer de fome “nessa vida” porque faz parte de uma escolha prévia sua nascer na miséria para evoluir. A fome não evolui, involui, tira a dignidade, desumaniza, gera violência. Um deus desse, pra mim, é um diabo. Não poderia amar mais a justiça social do que a um deus invisível que cria gente imperfeita pra brincar de aperfeiçoá-las com dor. Não é sadismo, o nome?
Não vejo problemas em acreditar piamente que, não existindo reencarnação, as pessoas morram e vão direto para o colo de deus. O que não me serve é a afirmação que o ciclo de vida terminou e que deus tinha um propósito na vida de mortes prematuras de jovens negros, pela violência; de gente mal assistida em hospital público. Por que “a missão de vida” de quem mora na periferia é menor que a de quem é operado no Albert Eisten?
Se deus nos fez a todos querendo morrer e matar por uma xereca ou uma rola, porque botaria o sexo no lugar do profano, do feio, do sujo? Se veio de Deus, não seria o sexo divino? Por que os espíritos não podem lidar com quem fez sexo, mas lidam de boa com quem votou em Bolsonaro e vai trabalhar para a espiritualidade? Que moral orienta essa espiritualidade?
Quantas mulheres terão que se submeter a relacionamentos abusivos para cumprir a vontade de um deus que as mandou esperar a transformação de seus maridos violentos, que lhes deu a missão de cuidar de quem as humilha e machuca?
Se é anti-ético, se é imoral, não pode ser divina a doutrina, mas humana. Paulo, o apóstolo, escreveu uma carta aos Coríntios, sobre o amor (que virou música do Legião Urbana): não importa se a doutrina foi inspirada numa grande e impressionável profecia, se há demonstrações inexplicáveis de dons, premonições, visões impactantes, se são faladas as línguas dos anjos.. sem amor, sem empatia, a religião é “como um metal que soa, um sino que retine”… faz barulho e só. O apóstolo continua: “O amor não fica satisfeito com a injustiça”.
Paulo Freire defendia sua fé de forma belíssima sem jamais justificar “o sistema que inventou essa aberração: a miséria na fartura”. A teologia da libertação, os kardecistas progressistas, a teologia da missão integral… são exemplos de formas de crer que não aliena as pessoas do mundo real para transformá-lo como materialização do amor que apregoam.
O sagrado deve ser respeitado. O mistério, reverenciado.
A imobilidade, o conformismo, a doutrina alienante, não.

Anúncios

AMOR EMAGRECE

 

ELIANE PINHEIRO

Quando conheço pessoas e vou delas me aproximando, conforme vão gostando de mim, mais me veem menos gorda. E quando passam a me amar, dizem que emagreci. É um amor tão sincero que me amam como se eu fosse magra, de tão legal que sou. Gorda de alma magra. Preto de alma branca. Bicha não afeminada. Nem é tão negra, nem é tão gorda, nem parece sapatão, nem me lembrava que você era umbandista. De tão, tão legal que a gente é.

SOBRE DESEJO

ELIANE PINHEIRO

 

Por que tinha que ser virgem, a santa? Por que as santas devem ser virgens? Castas de toque de outro, do toque secreto de si, dos pensamentos? Porque quanto menos prazer, quanto menos amores, quanto menos gozo, mais a vida se enche de tanto faz, mais prontamente se diz Sim, eis-me aqui.
Só se domina desejo que não existe.
Porque desejo mesmo
que arde
todas sabem: são indomáveis.

 

 

 

 

“Sou homem”, absolve-se o santo homem de deus, arrependido.
Adulterou, fornicou, assediou, abusou, estuprou. Não importa.
A graça do Senhor é infinita. “Pecador sou, careço de perdão”. Levanta-se com o passado apagado, seu gozo é abençoado pela misericórdia abundante de deus. Não o dos gays. Não o das travestis, não o das lésbicas e bissexuais, não o da puta que o fez pecar. Abominação é.
Apela à sua miserável condição humana, sob incontáveis arrependimentos sinceros: o Senhor já nem se lembra mais. Recorre à humanidade para si. Jamais para humanizar. As outras, os outros, que queimem no inferno: em morte e aqui.

Estamos em suas mãos

ELIANE PINHEIRO

 

Nem as questões relacionadas ao mundo do trabalho, nem a exclusividade das tarefas domésticas, nem nosso gozo e sexo, nem o controle de nosso corpo. A luta feminista mais difícil é desentranhar o patriarcado dos nossos afetos, da nossa forma de amar: nisso, nem Frida, nem Simone de Beauvoir são exemplos. Ainda somos tentadas a escamotear relações abusivas com virtuosos “Mas ele”. Gritar contra a opressão material, concreta, nos empodera, nos fortalece, nos agiganta. O que nos apequena e fragiliza ainda está dentro nós, bem lá no fundo de nós, modelada pelo patriarcado: nossos afetos tortos, nossa forma de amar. Eis o grande poder que ainda damos aos homens: sofrer por eles. “Relevem pequenos abusos, machismos mínimos, sutis misoginias, delicados desprezos, poucas subestimações. É isto ou a solidão”, ameaça a menina interior que fomos criadas pra ser. Quanto o quesito é afeto, a libertação é um doloroso parto.
(E mesmo as lésbicas perigam repetir esse padrão do papel macho – fêmea, pai – mãe, provedor – dependente).

Sobre amor

Eliane Pinheiro

Não é possível amar puramente a quem se conhece. Conhecer é ter intimidade para ver o odiável. E a partir de então, amor e (quase) ódio são faces de uma mesma moeda.
Moeda.
Moeda. Valor de troca. Na amizade ou no namoro: Supre-me as necessidades e supro-te.
Necessidade de riso frouxo, de maledicência, de abraço, de olhar pras coisas junto. Necessidade de importância.
Somos, seguramente, muito importantes para quem nos ama mesmo nos conhecendo.
E temos sede desse suicídio da persona. Queremos esse canto de nudez no mundo. Desconfio que a busca das pessoas não seja conquistar. Mas ter consigo a quem possa desconquistar em paz, de meia furada ou bebendo água no gargalo, sendo o que seria sozinho.
Sim! É isto! É sobre pessoas que podemos arrastar pra dentro de nossa solidão, sem arrumar o quarto.
Que pessoa quereria ser a deusa de alguém, se o decanso da alma é poder ser só demasiadamente humana?

Navegação de Posts